E não estamos falando de roupa e sim de um estilo de edição das imagens: o stop motion

O stop motion (traduzindo: ação parada) é uma técnica de animação que permite a objetos inanimados, fisicamente manipulados, parecer se mover por conta própria. Isso é possível porque esses objetos são fotografados quadro-a-quadro, a cada pequeno movimento realizado. Quando essas imagens são editadas e mostradas sequencialmente criam a ilusão de movimento. Não é mágica, nem é só tecnologia, é uma técnica inicialmente manual e que na edição ganha o apoio da tecnologia. Mas ainda assim dá muito trabalho e um resultado que sempre impressiona.

Bianca Caetano (bianca@clipestesia.com.br)

Stop motion e pixilation. Tudo a mesma coisa?!

Por definição há uma pequena diferença quando essa técnica é usada com objetos e com pessoas. O termo Stop motion, se refere apenas à manipulação de objetos. Um exemplo disso são as três breves cenas do clipe de On The Radio da cantora Regina Spektor que dão vida a carteiras escolares, cadeiras, livros e bolas.

Exemplo de utilização do stop motion

Antes de On The Radio a cantora havia realizado o vídeo para a música Us. Neste a técnica utilizada é o pixilation, quando a manipulação e registro quadro-a-quadro é usada com pessoas. Em Us, Regina Spektor aparece movendo objetos, tirando soldadinhos de sua boca e mais um monte de peripécias que a técnica e a imaginação da diretora Adria Petty permitiu criar. O clipe ainda brinca com várias técnicas de animação, é possível ver algumas cenas feitas em stop motion, animação computadorizada, colagens...

Outro clipe que se utilizou do pixilation foi 4,3,2,1 do K-os que através da edição de cada quadro registrado criou uma louca coreografia. O Mais Vendido do Mombojó usa principalmente o pixilation, mas o stop motion também aparece nas cenas com os bonecos e carinhos.

Exemplo de utilização do pixilation

 Como o Stop motion foi parar nos videoclipes

Embora esteja ganhando cada vez mais visibilidade e adeptos o stop motion não é algo recente. Pelo contrário, sua primeira utilização data de 1898.

Nos videoclipes a técnica também vem sendo usada desde os seus primórdios. O clipe de Dead Man’s Party do Oingo Boingo, nos anos 80, usou o stop motion para dar vida aos esqueletos mexicanos da capa do álbum de mesmo nome. A técnica é usada em poucas cenas e logo na primeira metade do vídeo que em sua maior parte é composto por cenas de uma apresentação da banda.

Nos anos 90, Billy Idol usou o stop motion para mostrar a sua transformação gradual de homem para ciborgue no clipe de Shock to The System do álbum “Cyberpunk”. Pedaços de metal e fios vão possuindo o corpo do cantor até transformá-lo por completo. Mais uma vez a técnica é utilizada apenas em pequenos trechos do vídeo.

Aqui no Brasil a técnica ficou mais conhecida através do clipe de Ra­ta­mahatta do Sepultura com participação do Carlinhos Brown, todo realizado em stop motion.


Sepultura - Ratamahatta

Outros clipes do final dos anos 80 e início dos anos 90 se aventuraram no stop motion. Mas o maior entusiasta da técnica nesse período foi o músico Peter Gabriel. O clipe de Sledgehammer (1986), todo em animação, ora em stop motion e ora pixilation, ganhou fama pelo impressionante resultado conseguido. Influenciou outros clipes e produções audiovisuais além de conquistar muitos prêmios é claro. O clipe abocanhou nove prêmios no MTV Music Awards de 1987, entre eles o de Melhor Videoclipe do Ano. No Brit Awards, Sledgehammer faturou a estatueta de Melhor Videoclipe Britânico. Depois deste o músico produziu outros dois clipes usando a técnica, Big Time (1987) e Digin In The Dirt (1992). Este último ganhou o Grammy de 1993 na categoria Melhor Videoclipe.

 

Modos de usar, indicações e contra-indicações

Para que os objetos manipulados criem a ilusão de movimento é preciso que sejam produzidos cerca de 24 quadros por segundo. Ou seja, para se fazer o uso da técnica em um videoclipe de três ou quatro minutos requer um longo período de produção. São necessários milhares de fotografias e meses de dedicação para finalizá-lo. Talvez por isso muitos diretores optem por usá-la em apenas alguns pequenos trechos do videoclipe ou intercalar com outras técnicas.

No clipe Equalize de Pitty, o stop motion é usado em três cenas no meio e no final do vídeo. Um tubo de pasta de dente é espremido até o fim, um ursinho de pelúcia é coberto pela espuma de uma banheira e livros de uma estante ganham movimento. O uso da técnica tem um tom experimental já que outras linguagens são agregadas como as cenas que são exibidas de trás para frente.

O Cake também se aproveitou da técnica para criar movimento em figuras feitas com giz em um quadro negro em alguns segundos do clipe de Guitar Man.

Durante a gravação do clipe de All She Wants Is todo em stop-motion, a banda Duran Duran estava em uma turnê que não poderia ser interrompida. A solução foi colocar manequins caracterizados como os músicos da banda. Os integrantes mesmo aparecem no início do vídeo e em algumas poucas cenas. O uso de uma iluminação especial a cada frame criando uma ilusão de áurea nos personagens do vídeo foi agregada ao stop motion. A repercussão do vídeo foi tamanha que ganhou o prêmio de Clipe Inovador no MTV Music Awards de 1988, mesmo sem a participação dos músicos.

Como a técnica permite uma criação de movimento em objetos inanimados, o roteiro de muitos clipes aproveita para criar seres estranhos, que não existem no mundo real, num clima de conto de fada. O stop motion no clipe de Warrior’s Dance do Prodigy fez possível caixas de papelão se transformarem em bonecos que saem para curtir a noite em um bar.

O clipe de Sinkin' Soon de Norah Jones junta peças esquecidas em uma garagem e materializa alguns seres que só existiriam na imaginação da gente.

Permitir criar situações fantasiosas é um dos maiores méritos da técnica. O que dizer do clipe de Her Morning Elegance do Oren Lavie que cria os mais diversos cenários como o fundo do mar, a cabide de um trem e muito mais apenas com um casal e alguns objetos em cima de uma cama. Onde mais isso seria possível?

E o clipe de Strawberry Swing do Coldplay que transforma o vocalista em um super herói e o coloca em uma aventura com cenários e personagens feitos de giz. Às vezes nem a imaginação da gente chega a tanto.

Embora todos esses clipes usem a mesma técnica de animação os resultados podem ser bem diferentes. É possível brincar com a velocidade da imagem. Se para conseguir a ilusão de movimento são necessários no mínimo 24 quadros, diminuindo ou aumentando este número o resultado visual é outro. Esse é o truque de A-Punk do Vampire Weekend que parece bem mais acelerado. Vermillon do Slipknot também usa duas velocidades extremas, o movimento lento e seqüencial do stop motion com as cenas aceleradas da cidade e das pessoas ao redor da personagem principal, para criar um belo efeito.

Já o diretor Michel Gondry brinca com a técnica no clipe de The Hardest Button To Button do The White Stripes. O stop motion é usado para criar a multiplicação dos instrumentos musicais da banda e tem suas velocidades alteradas de acordo com o ritmo da música. Quando os acordes são lentos, as imagens têm apenas 1 quadro por segundo e nos acordes mais rápidos são usados os tradicionais 24 quadros aumentando a velocidade das imagens.

My Drive Thru, parceria entre Santogold, Julian Casablancas & N.E.R.D., impressiona pela junção do stop motion e do 3D criando, além do movimento, a ilusão de que os músicos são feitos de papel em apenas 2D.

Os clipes completamente produzidos em stop motion eram uma raridade. Mas com um maior acesso a cursos, programas de edição e a experimentação alheia o número vem aumentando. Hoje é possível produzir um clipe em stop motion do início ao fim no conforto da sua casa. Foi o que fez Ricardo Koctus, baixista do Patu Fu, que se aventurou sozinho na produção de Seja O Que For, de sua carreira solo. A banda independente Columbia fez o mesmo e usou cerca de sete mil fotografias para conseguir o resultado final no clipe de Amanhã.

Se você quer ver mais clipe em stop motion dê uma conferida no review de Noites De Um Verão Qualquer, o novo clipe do Skank.


clipestesia