|
|||
|
O clipe histórico do Pearl Jam, Do The Evolution, já tem 10 anos. Mas faz uma excelente análise do mundo e continua hiper atual. Quem disse que animação é coisa e criança? Larissa Castanheira (larissa@clipestesia.com.br) Do The Evolution é sem dúvida o clipe mais famoso da banda grunge de Seatle. Tem muito impacto e é muito rico nos detalhes. O desenho se assemelha ao Spawn de Todd McFarlane, co-diretor do clipe, e a linda personagem que aparece em meio às cenas foi inspirada pela personificação da Morte, em um dos quadrinhos do The Sandman, da DC comics. O clipe segue a letra, com uma abertura mostando a evolução biológica, desde o Big Bang, passando por seres unicelulares, então dinossauros até chegar ao homem. Tudo passa rápido demais, então chegamos à letra em si, parte que mostra alguns fatos importantes da história mundial, sempre com muita ironia: E uma sucessão de cenas, como os escravos egípcios puxando imensos blocos nas suas costas, a guilhotina da Inquisição francesa, a caça às baleias, que hoje estão em extinção (assim como outras espécies). Quando ele fala na letra “admire me, admire my home, admire my son, He is my clone” mostram os palácios dos grandes imperadores e seus filhos ao seu lado, a continuação do império e das barbáries feitas pelo Homo sapiens. A imagem que se segue é chocante, e pode ser analisada de dois aspectos: um campo cheio de cruzes e pessoas mortas, referência direta à morte de Cristo, que os homens matam tudo que é bom nesse mundo, o mal prevalecendo, e como não bastasse isso, as pessoas lucrando em cima da fé alheia. Mas também pode ser a cruz representando a violência e ignorância do homem, e as pessoas adorando este símbolo. O que fica mais claro adiante, quando mostram profetas e Papas falando para grandes públicos, controlando o que devem fazer e pensar. Logo depois Eddie Vedder canta “this land is mine, this land is free” e mostra os índios americanos, que foram simplesmente dizimados, sem nenhum remorso. As fábricas, as armas, novos impérios e imperadores, com seus filhos que virão a assumir seus negócios e dar continuidade à produção, à poluição, à reprodução do capital. “i do what I want but irresponsibly”, os campos somem em meio aos prédios, as penas de morte são decretadas em nome da ordem, guerras para promover a paz. Uma cena quase diabólica é a dança dos KKK, grupo racista americano, surgido durante a guerra americana; na verdade o clipe aborda o racismo desde a época colonial (os negros levando chibatadas) até uns 50 anos atrás, quando esse tema ainda terminava em mortes descabidas. Os Ku Klux Klan foram comparados aos neonazistas. Por fim, a digitalização do mundo, a torrente tecnológica e seus usos abusivos, determinando o controle da máquina sobre o homem e sua conseqüente desvalorização e substituição, tema abordado em muitos filmes dessa época, como Matrix, Estranhos Prazeres, e até mesmo no clássico de Kubrick, 2001 – uma odisséia no espaço (1969), levando em conta a especulação quanto à corrida espacial no mundo bipolar da Guerra Fria. A “coisificação” dos seres humanos, que já nascem com um código de barras, o prazer pela violência (cena nojenta do cara usando a realidade virtual para estuprar uma menina). O clipe mostra todas as contradições dos homens baseada em dicotomias como guerra e paz, usando sempre uma linguagem irônica e colocando um fim: é a evolução, um mal necessário, só que a moral não acompanhou a tecnologia, causando todo o caos. A possível solução apresentada ao final seria a destruição de todo o planeta, de todos nós. Ao passo que tudo isso foi e é promovido pelo homem, e a Morte conduz toda a história. Interessante o fato que, no momento da explosão, o desenho do cogumelo nuclear que se forma se assemelha a uma célula, ou seja, devemos recomeçar tudo, bem do começo. E então, quem disse que desenho é coisa de criança? |