Quem é que nunca ouviu uma música e ficou se perguntando o que ela queria dizer? Ou que cantou errado porque entendeu algo que a deixou totalmente sem sentido? Clipestesia juntou esforços e vasculhou comunidades na internet, sites de vídeos e letras de música à procura das bizarrices do mundo poético-musical-videoclíptico. O resultado? Esse tipo de.. engano... é mais comum do que você imagina!

Patrícia Angélica (paty@clipestesia.com.br)

QUE REFRÃO É ESSE?

Para começar essa viagem (e olha que tem que viajar mesmo, porque pra conseguir entender algumas dessas letras...), vamos de Latino e sua Sem Noção. O clipe brinca com a letra, na qual ele fala de “melão” (no sentido dos seios grandes das mulheres), pois grande parte se passa numa feira. O pior não é a letra em si, que é realmente difícil de aturar, tamanha a bizarrice e os trocadilhos infames (“que malão, que melão”), mas sim, o que seria o refrão. É um amontoado de sons irreproduzíveis graficamente!

Uma música que também tem um refrão feito puramente de sons esdrúxulos é À Primeira Vista de Chico César. Para se ter uma idéia, em um dos sites de letras de música mais acessados do país, a letra de Á Primeira Vista não tem o “refrão” e nas que têm, são umas palavras estranhas, que não parecem “traduzir” o que o cantor fala realmente. O clipe é bem bacana, bonito mesmo.

AXÉ, OUTRAS CULTURAS E NEOLOGISMO

Esse estilo musical, para a maior parte dos mortais, vem sempre com algumas das letras mais estranhas que o cancioneiro já pôde registrar. Há uma infinidade de músicas que se fazem a partir da invenção de palavras ou de referências a outras culturas, como a africana, e que acabam por ficar divertidas, com um som fácil de repetir (às vezes nem tanto) e melodioso. Vejamos alguns bons (?!) exemplos:

Lirirrixa (todo axé que inventa uma palavra estranha, tem como título a tal) do Babado Novo:

“Lirirrixa (o que é um(a) ‘lirirrixa’? Tenho medo de descobrir...)
Timbaleia (eu juro que entendia “timbaleira” – como se fosse uma referência à Timbalada)
Badala, badala, badala
Rucutum, tan, tan, tan” (essa péssima  mania de colocar onomatopéias no refrão não dá certo!

No clipe, é melhor não comentar o adereço pink que Cláudia Leitte põe na cabeça...

E Maimbê Dandá da diva Daniela Mercury?! Mais do que a anterior, na qual a pior parte é o refrão, nessa, nada faz sentido (se fizer, me manda um e-mail explicando, porque eu ainda não cheguei nesse nível de abstração!)

Margareth Menezes tem a sua Dandalunda. De novo, uma letra aparentemente sem sentido. O clipe é bem bacana, mescla imagens-ícone da Bahia e da cultura afro-brasileira (como instrumentos de percussão e a própria coreografia) com imagens circenses.

É óbvio que a maior representante do axé não poderia ficar de fora das nossas “palavras estranhas”. Ivete Sangalo que quando ainda fazia parte da Banda Eva contava como um de seus maiores sucessos a canção Arerê, que além da palavra estranha, tem uma série de palavras com sons tão semelhantes que é difícil de alguém aprender o refrão de primeira e sem enrolar a língua (duvido que a própria cantora o tenha feito).

LETRAS QUE VOCÊ ACHA QUE ENTENDEU

É bem comum errar a letra de uma música e isso, em geral, causa situações no mínimo engraçadas.

Alagados da época em que o Paralamas do Sucesso era meio pobrinho ainda. – Tenho certeza que você também faz uma “embromation” no refrão “alagados, &%*@*#, favela da Maré”

Tic Tic Tac (Bate Forte O Tambor) da saudosa banda Carrapicho tem uma das letras mais enigmáticas da história fonográfica nacional. Afinal de contas “é nessa dança que o meu boi balança” e tenho certeza que como a autora aqui, você jurava que era o “pai” que balançava ou coisa do tipo. Tudo bem que o “pai” faz pouco sentido na história toda, mas o “boi” faz menos ainda, pelo menos na cultura do Sudeste! Provavelmente, a letra faz referência ao Boi Bumbá. Mas para quem não tem proximidade com a riqueza cultural do Norte do Brasil, é difícil imaginar o que é um boi balançando em alguma dança... Eu prefiro não entrar nesse exercício, afinal quero dormir à noite... E isso foi só pra citar um trecho, porque toda a música tem partes no mínimo viajantes.

E aquela banda de um hit só, P.O. Box, que lançou uma música que além de ter uma letra sem pé nem cabeça ainda é difícil de cantar? Papo De Jacaré o nome da tal e salve-se quem puder dizer que sabia a letra dessa música sem gaguejar. Afinal, o que diabos é uma “íngua”?

COMO ENTENDER OS LATINOS

As letras em espanhol também costumam causar confusão. Primeiro porque apesar de muita gente achar moleza se virar no espanhol, a prática é bem diferente, já que, dentro do segundo motivo, essa galera latina fala enrolado demais.

Um clássico da confusão na letra da música é o símbolo das coreografias, letras e melodias que pegam, Macarena de Los Del Rio. Mas pode ter certeza, 99% das pessoas cantam errado. “Baila ti cuerpo alegria, Macarena...” e o restante da letra é mais difícil... Acontece que a letra na real é

“Dale a tu cuerpo alegria Macarena
Que tu cuerpo es pa' darle alegria y cosa buena
Dale a tu cuerpo alegria, Macarena
Hey Macarena

Com uma coreografia e um ritmo tão chicletes quanto Macarena é Ragatanga, do extinto grupo Rouge. A letra não faz nenhum sentido, mas além de a coreografia ser um tanto quanto enrolada, as pessoas ainda precisavam treinar bastante para não dar um nó na língua ao cantar. Engraçado é que a música já nasceu como uma “embromation” de um hip hop das antigas chamado Rapper’s Delight (se a melodia te lembrar outra música não se assuste, O Pensador sampleou ela mesmo!) de um grupo chamado Sugar Hill Gang, só que ninguém consegue cantar nem a embromation (mas essa autora não só sabe cantar a embromation, como a música original).

Para provar que esse tipo de coisa é mais comum do que se pensa, há pelo menos duas comunidades no Orkut sobre o assunto. Uma é TROCANDO DE BIQUÍNI SEM PARAR e a outra é LETRAS ÓBVIAS.
Poderíamos ficar aqui indefinidamente discutindo as letras de músicas estranhas, incompreensíveis e que são cantadas errado. Mas prefiro que aqui seja só um aperitivo para que todos dêem uma passada nas comunidades citadas, já que foi nelas que começamos o processo criativo.




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