Esta autora, que detesta a banda, resolveu encarar o novo clipe do grupo, Viva La Vida. Ou melhor, os dois clipes
Ariane Holzbach (ariane@clipestesia.com.br)
Sempre tive a impressão que o mundo cult da música me acha uma formiga chata no meio dos tamanduás, daquelas que picam quando menos se espera. Sou uma formiga deslocada basicamente porque não consigo encaixar meu gosto musical ao da maioria dos músicos/críticos/amantes de música pop em geral:
- Não sou fã dos Beatles
- Não consigo gostar de Radiohead
- Acho Coldplay tão desnecessário quanto a depressão
Mas as coisas podem mudar, correto? Não, viciado leitor, ainda não foi dessa vez que me tornei fã dos Beatles. Estou me referindo ao Coldplay. Seu mais recente videoclipe, Viva la Vida, que ficou pronto em agosto e em apenas dois meses já foi visto por mais de 30 milhões de pessoas, me impressionou pacas!
Como sempre, a música é meio depressiva. (Se soubesse disso antes de ver o clipe, certamente não seria tão receptiva quanto fui. Por que certas bandas são tão eternamente tristes?)
Em meio a metáforas revolucionárias, reis e santos católicos, a letra descreve a angústia de um homem (talvez um rei) que descobre que perdeu seu reinado; que perdeu tudo que mais valorizava. Para ilustrar a música, guiada por um violino sublime e absurdamente bem produzida, Hype Williams foi chamado para dirigir o videoclipe.
Dono de uma carreira sólida especialmente no mundo hip hop, Hype elaborou um dos videoclipes que, sem medo de errar, é um dos melhores da década. Inspirado em telas de Eugène Delacroix e provavelmente em muitos outros pintores do romantismo francês, Hype Williams leva beleza, simplicidade e uma fotografia estonteante às metáforas da música.
Enquanto Chris Martin canta as angústias de alguém que percebe que perdeu tudo, os integrantes da banda vestem roupas de revolucionários franceses da mesma forma que Delacroix os pintou em sua obra maior, La Liberté guidant le peuple (algo como “A liberdade guiando o povo”), que retrata a Revolução de Julho de 1830, onde franceses estão em luta contra o absolutismo. Considerada uma revolução liberal, ela acabou se espalhando por toda Europa e foi fundamental para a decadência das monarquias européias. Não é à-toa que o quadro é um dos primeiros a serem degustados quando entramos no grande Museu do Louvre, em Paris.
O quadro de Delacroix sintetiza um novo futuro. Exatamente como a canção do Coldplay.
A estética, além de ter uma beleza ímpar, lembra pinturas antigas: a câmera mostra marcas de “dobras” na tela, como ocorre em quadros que foram violentados pela ação do tempo. As cenas, assim, aparecem "marcadas” pelo passado. Talvez seja uma metáfora na qual o futuro sempre carregará marcas do que já passou. Mesmo que reis ou homens comuns teimem em negar.
Ainda poderia ficar linhas e linhas falando da maravilhosa atuação do vocalista, que canta como se ovacionasse o futuro, e do final cheio de referências, quando a banda inteira se transforma em pétalas de uma rosa negra... E olhe que eu não gosto, ou talvez não gostava, de Coldplay.
OBSERVAÇÃO 1:
Como Coldplay gosta de ser considerado cult, o grupo preparou uma versão alternativa para Viva la Vida. Em lugares remotos do Youtube, é possível ver a versão feita por Anton Corbijn e inspirado em um clipe que o próprio fez em 1990 para o Depeche Mode, Enjoy the Silence, inspirado no clássico livro de 1943, O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Os dois clipes do Coldplay foram filmados quase ao mesmo tempo e têm algumas ligações, como a presença constante do quadro de Delacroix e a discussão que envolve um rei perdido em si mesmo. Na versão alternativa, filmada na Holanda, Chris Martin, vestido de rei, tenta achar seu lugar no mundo.
Versão do Coldplay (2008):
Versão do Depeche Mode (1990):
OBSERVAÇÃO 2 É verdade que Coldplay está envolvido em uma denúncia de plágio sonoro. A banda norte-americana Creaky Boards alega que o grupo roubou a melodia de uma de suas músicas. Eles chegaram a lançar um vídeo na internet comparando as duas canções. No site dessa banda, dá para ouvir o trecho problemático (que para esta autora não lembrou em nada a canção do Coldplay) bem como as alegações do Creaky Boards. De qualquer forma, o problema não extirpa a genialidade do videoclipe.