Madonna lançou seu primeiro clipe em 1983. Antes disso ela era bailarina profissional no interior dos Estados Unidos. Sua ligação com a dança sempre foi profunda e por isso podemos começar a entender a importância que as coreografias tem em seus clipes e sua carreira.
No videoclipe, a dança é uma das formas mais eficientes de enriquecer as curtas narrativas. É também umas das formas mais importantes de identificação entre espectador, obra e artista. Muitas vezes, as coreografias vistas nos vídeos são transpostas para shows ao vivo e são lembradas (quem não lembra das mãos girando em “Hung Up”?!), imitadas (quem ainda não tentou dançar qualquer umas das músicas?!) e ovacionadas (como não vibrar com coreografias como a de “Jump”?!) pelo público.
Madonna foi e continua sendo um dos grandes ícones da dança no videoclipe. Ela também foi uma das maiores responsáveis pelo crescimento do uso da danças nos vídeos e do incremento delas pelos artistas pop.
LUCKY STAR
O primeiro videoclipe de Madonna é simples. Ele acontece num cenário branco, com Madonna (bem diferente da que hoje conhecemos) toda vestida de preto fazendo uma coreografia relativamente simples com dois bailarinos, sempre se insinuando para a câmera.
O interessante é notar que Madonna chegou com esse clipe como se fosse uma mocinha despretensiosa, mas acabou conquistando legiões de seguidoras por todo o país. Toda garota da época queria imitar as roupas que ela usava, queria dançar e se comportar como ela!
“TALVEZ EU SEJA UM HOMEM GAY NUM CORPO DE MULHER”
Com esta frase dita pela Diva em um talk show em 2007, Madonna define um pouco do que é sua personalidade. Explica também, implicitamente, o que pode ter sido um dos fatores que a levou a fazer clipes um tanto andróginos em determinada fase de sua carreira. Nesta fase, Madonna, fazia tudo para parecer um homem em cena. Desde os figurinos até gestos tipicamente masculinos.
Um dos melhores exemplos dessa androgenia está em “Express Yourself”. Clipe que se passa em um fábrica maior parte do tempo, ambiente nada propenso a mulheres, em geral tão delicadas e frágeis (pelo menos dentro de um estereótipo machista da sociedade). Ela mescla cenas em que está vestida como uma femme fatale, lindíssima e sexy, com cenas em que veste um terno, com os cabelos lambidos de gel e dançando de forma máscula e com gestos bastante duros.
Madonna parece o tempo todo estar fazendo parte dos sonhos e fantasias dos operários da fábrica. Mas ao mesmo tempo que ela se insinua, mostra sua sensualidade e uma postura bastante masculina, evidenciando que as mulheres estavam desde aquela época prontas para brigar com os homens no mercado de trabalho, que as mulheres também podem ser duronas, malvadas e mesmo capazes de trabalhos pesados.
No entanto, nem por causa dessa pose de "macha" ela deixa de ser desejada pelos homens ou deixa de lado sua feminilidade.
Tudo isso que acontece no clipe é facilmente observado através da dança que Madonna executa em diversos momentos.
A DANÇA CONTRA A REPRESSÃO SEXUAL DA MULHER E DA SOCIEDADE
Madonna também foi por um bom tempo defensora das igualdades entre os sexos, da liberação sexual (que vinha sendo defendida há mais de duas décadas, mas que ainda não era plenamente posta em prática), entre outras polêmicas.
Ela sempre soube abusar do que causava polêmica para se promover, tanto é que um de seus clipes mais censurados, foi também um dos mais vendidos em VHS. “Justify My Love” , mostra uma série de fetiches sexuais que a grande maioria das pessoas têm, mas quase sempre têm vergonha, medo, receio de confessar, falar ou conversar sobre.
O clipe não possui muito daquilo que se chama classicamente de dança, mas, não se pode negar que a forma como cada um dos personagens se insinua para os outros tem uma beleza estética e não deixa de ser uma forma de mexer o corpo e utilizá-lo para expressar algum tipo de idéia não-verbalmente.
O clipe possui cenas lésbicas, de sado-masoquismo e outras coisas que não seriam de bom tom numa sociedade tão conservadora como a americana. Mas Madonna aceitou o desafio de mostrar isso, quebrar barreiras e assim defender a liberdade do prazer.
MADONNA E A LATINIDADE
Além de ser árdua defensora das mulheres, ela também defendeu com bastante afinco as minorias latinas e negras que vivem nos subúrbios das grandes cidades dos Estados Unidos.
Um clipe que evidencia essa fase é “La Isla Bonita”, no qual Madonna começa vendo pessoas tocando e cantando na rua. Sente-se atraída por elas, veste-se com um lindo vestido vermelho e uma flor no cabelo. E faz seu caminho ao encontro das pessoas que estão na rua.
A música tem o título em espanhol, apesar de um som muito pop que lembra de longe apenas o som latino. Mas o que vale é que a grande estrela norte-americana deixa-se levar pelo calor e sedução da latinidade. A quebra de uma grande barreira entre ela e uma parcela grande do público residente em seu país que na maioria das vezes é deixado de lado por outros artistas pop.
O que o clipe possui de mais latino é a coreografia. Madonna dança com a força e a sensualidade discreta que as mulheres dessa etnia possuem. Bate os pés e balança o vestido segurando a sua barra com as mãos
MADONNA DIALOGA COM A POBREZA
Madonna não ficou apenas do lado dos estrangeiros oprimidos. Ela também se solidarizou com os americanos mais pobres.
Um de seus clipes mais polêmicos nessa tomada foi “Material Girl”. Ele causou reações diversas, do lado de quem disse que na verdade ela queria reforçar os estereótipos e de quem dizia que pelo contrário, ela queria mostrar que nem é de jóias é que as mulheres gostam.
Caindo no mito romântico de que o amor é mais importante do que fama, dinheiro e objetos materiais, contrariando o que diz a música, o clipe mostra uma Madonna romântica, que quer ficar com o moço pobre ao invés do artista ricaço que a corteja durante todo o vídeo.
A dança eleva Madonna mais do que nunca ao posto de Diva. Ela dança cercada por homens que a idolatram, admirando-a e fazendo dela o centro não apenas do clipe como também do mundo pop. A coreografia é toda trabalha nesse sentido, todos estão em volta dela, mas abaixo, ao mesmo tempo.
MADONNA REBATE AS CRÍTICAS
Depois de causar tanta polêmica com suas músicas e principalmente com seus clipes, ela sentiu necessidade de gravar uma música e um clipe para deixar bem claro a todos os seus críticos que ela defende a liberdade e a quer para si.
Com uma música chamada “Human Nature”, na qual fala que a natureza humana é a de ser livre, de expressar seus sentimentos e não o de reprimir-se, o clipe é bastante ilustrativo. Um cenário todo branco, com Madonna e seus bailarinos de preto, acende fetiches sexuais para falar do diálogo entre liberdade e repressão.
As coreografias são feitas com base em instrumentos de tortura e repreensão. Além de um dos trechos mais emblemáticos do vídeo, no qual a Diva e os dançarinos estão em cubos, dançando como se quisessem se libertar dessas "prisões", procurando espaço aberto para poder se mostrar, a coreografia possui muito desses jogos de prende-solta, nos quais Madonna é sempre o centro, seja como vítima ou algoz.
MADONNA QUASE COUNTRY
Quem não se lembra do trabalho de Madonna com o álbum “Music”?
O clipe mais emblemático dessa fase é “Don’t Tell Me” no qual ela aparece paramentada de cowgirl, dançando em um pequeno palco cujo fundo é um telão que mostra uma estrada no deserto. Ela não dança sozinha, tem a sua volta vários cowboys gatíssimos devidamente paramentados. A dança lembra muito daquelas coreografias clássicas de filmes de velho oeste. Na verdade o vídeo é praticamente todo centrado na dança que Madonna executa sozinha ou com os bailarinos gatos.
A DIVA VOLTA A PROTESTAR
Semanas antes do início do conflito armado dos Estados Unidos com o Iraque, Madonna lançou uim clipe que prometia polêmica mais uma vez. Uma severa crítica ao militarismo do governo norte-americano, o clipe faz uso da dança para mostrar a força dos exércitos e a forma como esses subjugam povos e nações inteiras.
Madonna aparece morena, e todo o clipe é permeado por atitudes e costumes do modo americano de ver e dominar o mundo. A moda, os exércitos, passos de dança que transparecem uma violência e intolerância.
Esse clipe chegou a ser censurado pelo própria Madonna, devido ao momento delicado no qual o clipe foi lançado. Ele foi tirado de circulação, mas continua sendo um dos grandes exemplos da coreografia sendo usada como elemento de agregação ao significado da narrativa.
A RAINHA VAI PARA AS RUAS
Em 2006, Madonna lançou “Confessions On A Dancefloor”. Com esse CD, ela passou a estar muito mais nas ruas. Pelo menos em seus clipes. Nos vídeos de divulgação, ela está sempre de alguma forma se relacionando com a rua. Seja andando para chegar a uma boate, seja andando num furgão com amigas e "zoando" homens pelo caminmho, seja usando a última moda em esportes radicais urbanos(o parkour) nos clipes e nos shows.
“Hung Up” o primeiro clipe desse CD, traz uma Madonna que ensaia passos de dança sozinha numa academia, mostrando que aos 48 anos (na época), ela ainda poderia dar um baile de boa forma e dança em muitas garotas de 20 e poucos anos.
A coreografia é marcante, com mãos girando e as acrobracias de Madonna na sala sozinha, e o tempo inteiro mostra pessoas desafiando umas às outras nas ruas ao som de Madonna. Mais uma vez a dança vem pra marcar o espaço narrativo do vídeo. Nesse caso, é uma Madonna integrada às pessoas, fazendo até o que Deus duvida numa pista de dança.
MADONNA E O CO-ESTRELATO
O mais novo trabalho da Rainha do Pop, “Hard Candy”, traz, pela primeira vez, Madonna dividindo composições, canções e até mesmo videoclipes com outras grandes estrelas da música norte-americana.
Estratégia excelente para arrebanhar fãs mais jovens para sua carreira, o segundo clipe desde CD , “Give It 2 Me”, aparece com Madonna ao lado de Pharrel Williams, um dos cantores e produtores mais importantes do Hip Hop na atualidade.
O clipe mostra uma Madonna mais próxima de um público mais jovem, graças a sua junção com os astros que estão no top dos adolescentes por todo o mundo.
A coreografia é cheia de energia, e possui diversas quebras devido à inspiração fotográfica sofrida por esse clipe feito durante uma sessão de fotos para uma importante revista feminina. Bastante criticado (inclusive por nosso site), por teoricamente não trazer nenhuma novidade, o clipe talvez não se proponha necessariamente a isso.
Importante é que Madonna está aprendendo a lidar com o fato de não ser uma estrela solitária e continua dançando tanto quanto antes e com figurinos exuberantes, ressaltando que ela está fazendo 50 anos, mas nem por isso deixa de ser linda, sexy e com uma flexibilidade de dar inveja a qualquer um.
Por essas e outras é que Madonna é considerada uma dos grandes marcos no uso da dança nos videoclipes. Em cada fase de sua carreira, a dança desempenhou uma papel diferente e mais importante dentro dos vídeos. Isso ajudou na definição de um dos elementos mais importantes da linguagem de videoclipe atual que é a coreografia, antes nem tão usada, já que era filmadas bandas tocando ao vivo ou em estúdio. Hoje, cada passo dentro de um clipe é milimetricamente pensado! Temos de agradecer e muito à a Rainha do Pop, Madonna!