O Brasil tem rock sim!!!
Videoclipes contam a história e a evolução do gênero no Brasil

Marcelo Mendonça (marcelo@clipestesia.com.br)

A febre que já incendiava as pistas e as cabeças de jovens ao redor do mundo chegou ao Brasil com os reis do Iê, Iê, Iê. Ainda durante o governo JK, encontramos registros expressivos da cultura rock no Brasil. Em 1957 foi gravado o primeiro rock nacional em português: Rock and Roll Em Copacana por Cauby Peixoto.
Além dele, a grande explosão da “bonequinha” Celly Campelo que, após embalar os jovens do país com os sucessos “Estúpido Cupido” e “Banho de Lua”, ganhou um programa na TV Tupi, além de ter promovido o lançamento da “Revista do Rock”! Um fato presente no rock da época é o número de versões de sucessos americanos.

Brasil. 1960. É inaugurada Brasília, projeto faraônico de mudança de capital do presidente Juscelino Kubitschek. O momento no Brasil era da busca pelo novo, em todos os sentidos. O país que buscava crescer 50 anos em 5 queria se modernizar inclusive nas artes e JK foi apelidado de presidente bossa-nova... Mas ele facilmente seria o presidente rock’n’roll!
É nos anos 60 que surge um capixaba que se tornou o maior ídolo da música nacional: Roberto Carlos! Havia uma legião de fãs que faziam de tudo pelo Rei e era ele quem ditava os costumes da época. E ai de quem disser que ele não tinha videoclipe, se a cada apresentação em festivais era formada uma estrutura grandiosa para transportar o público para junto dele. Além de mostrar o tipo de cabelo, roupa, a imagem de galã e criar o clima que a música pedia.



O Rei Roberto Carlos veio acompanhado de Erasmo, Wanderléia, Jerry Adriany, Renato e seus Blue Caps etc.

O crescimento desse movimento chamado Jovem Guarda incomodava tanto aos “grandões” da MPB, que Elis Regina, Jair Rodrigues e outros nomes importantes da MPB realizaram uma passeata em protesto contra as Guitarras Elétricas.

1964. O Brasil sofre o Golpe Militar e os passos da população passam a ser controlados. Ao mesmo tempo em que os Festivais se proliferavam, havia uma grande censura que proibia a livre expressão. Se por um lado a turma do “Iê-Iê-Iê” parecia não se importar, surgiu outra classe de roqueiros com uma cara muito mais MPB. Em 1966 Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee formaram os “Mutantes”, com um rock diferente, com canções estruturadas de forma mais melancólica do que o rock da jovem guarda fazia.
Isso se refletia nas apresentações da banda que, ao contrário de Roberto Carlos, não fazia grandes espetáculos e passava a simplicidade “woodystockiana”, como pode se conferir no clássico Panis Et Circenses. O grupo fez sucesso no Brasil e no exterior chegando a influenciar o trabalho de Kurt Cobain, da aclamada Nirvana. Em 1973, Rita Lee deixa os Mutantes e o grupo caminha para o fim.
Mas foi em 1967 que os maiores nomes da Tropicália se evidenciaram no Brasil. Os baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil compuseram Alegria Alegria. A apresentação no Festival de Música Brasileira da Rede Record também foi simples, apesar de ainda não mostrar o estilo que os Doces Bárbaros viriam propor ainda no fim da década de 60.
A banda não escondia as influências do álbum Sg. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Com um estilo diferente do que era visto no Brasil, a música calma e ao mesmo tempo revolucionária era apresentada em meio a muitas cores e mensagens positivistas, como vemos na antológica apresentação de Gal, Gil, Caetano e Bethânia em “O Seu Amor”, em um vídeo produzido para o Fantástico.



As canções revolucionárias da Tropicália levaram Caetano e Gil ao exílio em Londres, no período de 1969 a 1972.

Ainda em 72, Rita Lee começou sua carreira solo e no ano seguinte uma nova banda surgia no país: “Secos e Molhados”. Liderados por Ney Matogrosso, o grupo trouxe o rock’n’roll de forma andrógina e performática. A aceitação pelos conservadores da época foi baixa mas o grupo manteve a identidade e o bom rock, mesmo com pouco tempo de duração. Em 1974 o grupo se desfez, e a canção mais conhecida do grupo é O Vira.
Um fato curioso é que essa música foi uma das primeiras a ter um videoclipe no Brasil, senão a primeira.
No mesmo ano em que os “Secos e Molhados” apareceram, o Brasil conheceu Raul Seixas, o Maluco Beleza. Raulzito, como era chamado, já era produtor e compositor de coisas que não gostava e decidiu investir na carreira de cantor. As performances únicas se misturavam com letras inteligentes e deixavam o rock transparecer. Em meio à Ditadura, ele conseguia driblar a censura.
Raul Seixas foi um dos precursores de videoclipes para O Fantástico. Apesar do baixo orçamento e da escassez de recursos, Raul Seixas conseguia ilustrar o que cantava com imagens de um templo, o lixo entre outras que encontramos no seu clipe mais famoso Gita. O sucesso de “Gita” fez Raulzito voltar ao Brasil, após ter sido exilado nos Estados Unidos por cantar e divulgar a tal “Sociedade Alternativa”.

O sucesso dos baianos Raul Seixas, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros que estavam fora do eixo Rio - São Paulo abriu espaço para que bandas de rock de outros estados aparecessem.
Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Luiz Dias Galvão e Baby, que ainda era Consuelo, surgiram como os “Novos Baianos”, nitidamente influenciados pelo movimento tropicalista. Pouco tempo depois, Pepeu Gomes, que era apenas colaborador do grupo, se tornou “membro efetivo” após casar-se com Baby Consuelo. O grupo trouxe a simplicidade do movimento neo-hippie de volta nas apresentações. Vídeos simples que mostravam a cara da banda como ela era, e não como o que ela pretendia ser.
Os mineiros também mostravam sua personalidade através de vídeos que não escondiam o regionalismo. O pacato estado de Minas Gerais refletia-se na música, um rock com elementos “folk” que eram vistos em apresentações também simples. O Clube da Esquina liderado por Milton Nascimento e Lô Borges teve grande reconhecimento dentro e fora do país.
Ainda encontrávamos por essa época algumas bandas mais “underground”, como o rock progressivo da banda O Terço, o hard rock do Casa das Máquinas e o rock rural de Sá, Rodrix & Guarabyra. Sá & Guarabyra cantam juntos até hoje.

1980. Eis que surge o grande boom do rock nacional. Cansados de tanta ditadura, às vésperas de uma abertura democrática, o rock foi recebendo novas caras, influenciado pelos precursores do rock nacional e internacional. A linguagem de videoclipe já estava se estabelecendo melhor no Brasil e os novos roqueiros eram quem mais utilizavam o clipe como divulgação de música, estilo e, principalmente, criação de identidades.
Havia duas vertentes principais no rock nacional da década de 80: os mais politizados e os “escrachados” (que também tinham uma forte ligação política, mesmo que parecesse indireta). O rock da época era influenciado diretamente por David Bowie e Marc Bolan, entre outros. Esse novo estilo de fazer rock foi denominado de “BRock” por Nelson Motta.
Logo no começo, uma das primeiras bandas a estourar nas paradas foi “Blitz”, comandada por Evandro Mesquita. Fazendo sátiras ao cotidiano, principalmente com histórias de casais, o rock bem humorado e com muito “carioquês” agradou a todo o Brasil, abrindo as portas do novo rock para outras bandas em diversos outros estilos de rock.
Tinha rock em todos os cantos do Brasil! Influenciados pelo rock inglês, o “Paralamas do Sucesso” mostrava que eram jovens normais. O som e a postura da banda era verificada sobretudo nos clipes (que eles sempre dizem que detestavam ter de fazer) como em Meu Erro, clipe produzido para o Fantástico que abordava o universo jovem e o uso das motocicletas.
A representante feminina da época foi principalmente Paula Toller com a banda “Kid Abelha e os Abóboras Selvagens”, que mais tarde viria a se chamar apenas “Kid Abelha”. Com influências da jovem guarda e da música pop do exterior, os videoclipes traziam a força do rock com a sutileza feminina, como observamos em Garotos.
Mas sem dúvida, uma das bandas de rock dos anos 80 que mais influenciaram as futuras gerações foi a “Barão Vermelho”. As influências da banda eram simples: rock’n’roll! Puro! Foi esse, inclusive, um dos motivos que ocasionaram a saída do Cazuza da banda, quando o guitarrista Frejat assumiu também os vocais.
Para o Brasil, a banda trouxe videoclipes inovadores, com força política e, como a censura teoricamente já não existia no Brasil, eles abusavam do poder da mídia para a livre expressão. O videoclipe de “Ideologia” mostrou diversos grupos políticos e diversas identidades para o único Cazuza que se dizia desnorteado após a perda das ilusões e repressões.

Se a garra do “Barão Vermelho” era vista com arranjos animados e alegres, em Brasília, o movimento que começou pelo “Aborto Elétrico” trazia músicas com letras e arranjos mais melancólicos. O “Aborto Elétrico” se separou dando origens às bandas “Plebe Rude”, “Capital Inicial” e “Legião Urbana”.
A “Legião”, principalmente, levava multidões a estádios e falava sobre relações dos jovens entre si, com os pais, com o país... Tudo de forma melancólica que se refletia na cidade de Brasília, onde não se via nada além de política na cidade pacata. Um dos principais clássicos da banda que exaltava os sentimentos da geração Coca-Cola é “Que País é Esse?”, com clipe também produzido pelo Fantástico.

São Paulo também teve representativo espaço no cenário do rock nacional na década de 80. No puro Rock’n’Roll, a banda “Ultraje a Rigor”, liderada por Roger Moreira tinha uma linguagem diferente do “Barão Vermelho” que fazia o mesmo tipo de som. Enquanto a seriedade das letras de Cazuza conscientizavam o país, o “Ultraje” fazia sátiras cômicas.
No clipe de Nós Vamos Invadir Sua Praia, a banda fez uma brincadeira com o fato de serem paulistas e estarem entrando no mercado de rock nacional, que era voltado para o Rio de Janeiro, além de brincar com a questão das madames estarem reclamando que os “farofeiros” estavam “invadindo” as praias da Zona Sul carioca.
Influenciados pelo Punk Rock, as bandas “Titãs” e “IRA!” tinham, além do som, os mesmos bateristas, sendo Charles Gavin do “IRA!” e André Jung do “Titãs”, mas ambos trocaram levando a formação “oficial”. Apesar das semelhanças, as bandas têm clipes bem diferentes. Cada uma mostrava a realidade punk e rebelde através de um contexto próprio. Enquanto o “IRA!” utilizava elementos comuns do dia-a-dia em Envelheço na Cidade, o “Titãs” trazia elementos estéticos mais refinados, como em Cabeça Dinossauro.
Mas foi com a banda RPM que o Brasil viu crescer a febre do rock. Eles quebraram recordes de vendagens, apareciam em todos os programas de TV e o vocalista Paulo Ricardo ainda estampava as paredes dos quartos das garotas do Brasil. Era um novo fenômeno pop nascendo dentro do Rock Nacional. O talento da guitarra, teclado e até da bateria eletrônica se aliavam ao carismático (e símbolo sexual) vocalista.

Mas o rock dos anos 80 não se prende ao eixo Rio – São Paulo. Os “Engenheiros do Havaí” fizeram sucesso mesmo “longe demais das capitais”. Os clipes da banda do Rio Grande do Sul não deviam nada aos clipes produzidos no eixo principal, conquistando assim público em todo o país.
O mesmo acontece com o, também gaúcho, “Nenhum de Nós”. Influenciados pela música regional e pelo rock inglês, a banda chegou a regravar uma música de David Bowie, alcançando grande sucesso no Brasil inteiro. O videoclipe de O Astronauta de Mármore, além de mostrar a individualidade da banda, dialoga com questões políticas e sociais, como se almejasse uma fuga para o espaço.
Ainda encontramos os mineiros do Sepultura, banda de heavy metal que faz muito sucesso fora do Brasil. A banda surgiu em 1983 e ainda vem freqüentemente ao país, apesar de nunca ter tido destaque total. As próprias letras das músicas são em inglês.
O rock da década de 80 ficou marcado principalmente pelo primeiro Rock In Rio, em 1985.

1990. A MTV chegava ao Brasil para reforçar as identidades do videoclipe e do rock nacional. Com a abertura neo-liberal do governo Collor, a globalização só aumentava. As misturas de estilos se tornaram cada vez mais freqüentes. A banda mineira “Skank” não se define apenas como rock, pop ou reggae. Eles são a mistura de várias influências. O primeiro grande sucesso da banda foi Garota Nacional. O videoclipe é marcado pela irreverência e sensualidade.
Também com elementos do reggae, a banda “Rappa” surgiu na mesma década. Apesar das mesmas influências que “Skank”, o “Rappa” não usava o mesmo tom bem humorado, tratando dos assuntos referentes ao Brasil, como violência, uso de drogas fora da favela e desigualdade social de forma séria e incisiva, como observamos no primeiro grande clipe da banda, “Minha Alma”.

Com elementos pop bastante presentes, as bandas “Pato Fu” e “Jota Quest” fizeram sucesso vindos de Minas. Pato Fu, liderado por Fernanda Takai, trouxe uma simplicidade na música e nas apresentações, com letras bem elaboradas, lembrando os “Mutantes” da década de 70, enquanto Jota Quest, com uma levada pop e black remete à jovem guarda.
No Recife, surgiu o movimento manguebeat, comandado principalmente por Chico Science. O principal nome do movimento liderava o grupo “Chico Science & Nação Zumbi”, que misturou de forma inovadora elementos de rock com maracatu. O clipe de Maracatu Atômico trazia elementos da cultura nordestina nos figurinos e cenários.
O humor foi muito valorizado nos anos 90. Se bandas de axé e pagode estavam no auge no momento, as bandas “Raimundos” e “Mamonas Assassinas” brincavam com os estilos. Em A Mais Pedida os integrantes dos “Raimundos” se vestiram de pagodeiros e satirizaram a indústria musical. Já os meninos de Guarulhos, da banda de sucesso meteórico “Mamonas Assassinas”, brincavam com tudo e todos. O grupo refletiu a cultura brega de forma exagerada em seu único clipe, Pelados Em Santos.
Destaque para o Pop-Rock de “Charlie Brown Junior” e o rock intelectual de “Los Hermanos”. “Charlie Brown” com influências do reggae e “Los Hermanos” com a Tropicália. Um dos primeiros clipes dos paulistas skatistas foi Proibida Pra Mim, que mais tarde seria gravada por Zeca Baleiro. Já nesse clipe a banda mostrava a personalidade do skate. A banda “Los Hermanos”, depois de “Anna Júlia”, mostrou a que veio a partir do clipe simples e até bucólico de Primavera.
O título de mulher do rock na década foi sem dúvida para Cássia Eller. Sem pudor, Cássia mostrava rebeldia e dúvidas de ser uma jovem homossexual. Mesmo sem compor as próprias músicas, a forma única de interpretar fez com que Cássia Eller se tornasse um dos mitos da música brasileira. Tendo em seu repertório grande parte das músicas de Cazuza, Cássia Eller falava sobre sua homossexualidade sem problema.

2000. Estamos passando pelas transformações na música e o hibridismo toma mais ainda conta dos movimentos artísticos. Bandas como CPM 22, Detonautas Roque Clube, LS Jack, a roqueira baiana Pitty e a novíssima NX Zero misturam elementos e não se definem bem onde está o pop ou o rock em seus estilos.
Sem dúvida, cada momento teve o rock que a época pedia. Os revolucionários, os que simplesmente gostam do som, os que se identificam com as letras, todos são roqueiros. Sem o preconceito de que o Brasil não sabe fazer rock, o que encontramos é uma grande variedade de estilos com a cara do país, clipes que mostram nossa realidade e um rock de verdade!






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