O estilo muito pesado de ser Ariane Holzbach (ariane@clipestesia.com.br) Eu tinha nove anos e os tempos eram outros. No final dos anos 80, um vizinho enlouquecia a família por causa de seus gostos musicais. Do dia para a noite, ele começou a deixar o cabelo crescer, furou a orelha direita, passava dias trancado no quarto, estava pensando em tatuar o braço e passava madrugadas ouvindo músicas que, para mim, eram barulhos altos e desconexos. Eu, que antes tinha a maior simpatia pelo jovem mais velho (ele tinha uns 13 anos), agora morria de medo dele... Um dia criei coragem e, enquanto minha mãe conversava com a mãe do garoto, entrei sorrateiramente no quarto dele. Ai meu Deus!!!! O que eu vi me deixou traumatizada por várias semanas: pôsteres de homens que pareciam demônios preenchiam as paredes. Caveiras, esqueletos e sangue ilustravam blocos de desenho e revistas. Discos de cantores descabelados que eu nunca tinha ouvido falar enfeitavam a escrivaninha... “Loucura não tem idade”, era o que eu pensava.Como é muito difícil categorizar gêneros, sobretudo quando se fala em rock, o estilo que dominou a adolescência do meu vizinho de 13 anos servirá como ponto de partida e referência para falar de um tipo de música que tem a autenticidade como premissa: o heavy metal. Em linhas gerais, heavy metal é uma vertente do rock que surgiu entre os anos de 1960 e 1970 nos Estados Unidos e na Inglaterra. Como regra geral – bem geral – trata-se de um tipo de música em que o virtuosismo da guitarra e do baixo são protagonistas das músicas. A bateria normalmente é enorme para permitir muitas combinações de melodias e a voz do cantor é um elemento à parte. Mais do que o cartão de visitas da banda, o vocalista deve ser detentor de um excelente poder vocal que pode ir do gravíssimo ao super agudo. O que importa é que seja potente e diferente – afinação, portanto, não é exatamente um pré-requisito. Clipes também podem ser metal! Especialmente nas décadas de 70 e 80, quando o gênero se consolidava também fora do eixo anglo-saxônico, além das características musicais, bandas de heavy metal costumam ter um estilo de vida bastante singular. Muitas bandas utilizavam a máxima “rock star” em todos os momentos – e isso pode ser visto explicitamente nos videoclipes. Sim, porque apesar de pregarem a autenticidade acima de tudo, boa parte das bandas de heavy metal fez videoclipes, exatamente como ocorreu com as boybands ou com os cantores sertanejos. E isso antes que, por exemplo, Michael Jackson mostrasse como é que se faz.O estilo de ser do heavy metal pode ser visto nos cenários, nas roupas, nas narrativas e nas temáticas dos videoclipes. Vamos começar do começo. O clipe de “Paranoid”, do Black Sabbath, uma das primeiras bandas de heavy metal, ainda é fraco narrativamente, mas já mostra a criação de identidade do grupo: cabelos compridos, a voz inconfundível de Ozzy Osbourne em plena juventude e o virtuosismo dos músicos dão o tom do clipe: Anos mais tarde, os elementos de reforço de identidade continuam presentes nos clipes do Black Sabbath. O clássico “Mama, I’m comming home”, já da carreira solo de Ozzy Osbourne, feito em 1991 em homenagem à esposa dele, tem duas versões. A mais conhecida foi dirigida por Samuel Bayer, o mesmo que fez “Smells like teen spirit”, do Nirvana, e “What goes around... Comes around”, de Justin Timberlake. Bem mais produzido, esse clipe mostra os integrantes mais maduros, mas ainda virtuosos, extremamente masculinos e, claro, de cabelos compridos.
A banda britânica Judas Priest, que surgiu em 1970, criou o clássico “Breaking the law”, em 1980, e acabou fazendo uma discussão bastante polêmica sobre a quebra de regras. O videoclipe reforça o politicamente incorreto ao transformar até um guarda dorminhoco em metaleiro e ao fazer a banda entrar em cofres de banco tocando rock (!) e fugir da polícia. A música ficou conhecida também por causa do seriado Beavis & Butt-Head, sucesso politicamente incorreto da MTV. Novamente, vê-se o virtuosismo enfatizado em cada cena. Aqui, contudo, mais um elemento pode ser apreciado: o estilo “carpe diem” do metal, ou seja, aproveitar a vida de forma veloz. Outro elemento bastante presente no heavy metal é a masculinidade. As bandas em geral reforçam sua heterossexualidade por meio de símbolos da macheza, como motos, automóveis e belas mulheres. Um dos clipes da banda Motörhead – “Killed by death” – feito em 1984, mostra de maneira até didática a forma como um metaleiro deve se comportar. Nele, uma jovem é impedida de sair de casa pelos pais por estar vestida de forma indecente. Em meio à discussão, o vocalista invade a casa da família e seqüestra a bela jovem em uma enorme motocicleta. Carros esquisitos, casacos de couro, cabelos compridos e guitarras dividem várias cenas. A cara de machão dos cantores soa, hoje, bastante cômica. E a letra poderia enfeitar estantes de filmes eróticos: Se você espremer meu lagarto / Vou meter minha cobra e você / Sou um aventureiro romântico / E um réptil também. Esse excesso de masculinidade continua, de forma surpreendente, nos trabalhos atuais do Motörhead. Preste atenção no clipe de “Whorehouse Blues”, feito em 2004. O clipe é limpo e colorido, mas muitos dos elementos do jeito metaleiro de ser continuam lá. A banda sempre teve influências do blues, mas essa música, que finaliza o álbum Inferno, mostra essa bagagem em alto e bom som, e a melodia não tem guitarras nem bateria!!!
O virtuosismo “veloz” do Airon Maiden aparece em quase todos os vídeos. Guitarras e enormes baterias aparecem sem parar em clipes como The Trooper , em que a belíssima rapidez da guitarra é comparada a uma corrida de cavalos que participam de uma guerra, em Number of the Beast , em Be Quick or Be Dead e, para terminar, no estranho “Rainmaker”, que conta com a honrosa participação especial, nos segundos finais, do mascote da banda, a caveira simpática Eddie The Head. Os californianos do Metallica também viraram símbolos ligados ao gênero, apesar de existirem desde 1981. Se o Iron Maiden tem a voz de Bruce Dickinson como marca, o Metallica nao fica atrás com o poder vocal de James Hetfield. A força interpretativa do vocalista pode ser vista em vários clipes, como no belo e reflexivo “Until It Sleeps”. Muitos clipes do Metallica são introspectivos e passam mensagens que vão além da publicidade. Duas das músicas mais conhecidas, The Unforgiven e a seqüência The Unforgiven II, tematizam a busca do “eu”. Com uma cautelosa fotografia sombria e intensa, ambos mostram um garoto tentando encontrar algo por entre pedras, paredes e cavernas. Em “Hero or the Day”, um jovem passa um dia letárgico em frente à TV. Ele bebe, alimenta-se, faz sexo e termina vomitando em uma privada, enquanto o programa televisivo continua ali, enfeitando o cenário. E, para terminar, uma música visceral e pesada, bem a cara da banda: “St. Anger”, filmado dentro de um presídio:
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