Antigos ídolos voltam à tona e tentam brilhar nos clipes. Conseguirão salvar a indústria fonográfica?

José Maria Pugas Filho (ze@clipestesia.com.br)
Colaboradores:
Francisco Quiorato (francisco@clipestesia.com.br)
Patrícia Angélica (paty@clipestesia.com.br)

Tudo é efêmero – tanto a fama quanto os famosos.
Marco Aurélio

A indústria fonográfica viveu seu pior ano em 2006. Apesar da pequena elevação no ano seguinte, tudo indica que 2008 baterá o recorde negativo. Nada comparado às vendagens gigantes dos anos 80 e 90. A escalada de prejuízos e a fuga de artistas para selos menores ou produtoras independentes – em grande parte montada pelos próprios artistas – provocou as gravadoras a buscar soluções para este grande pergunta: para onde foram os anos dourados?
A resposta mais imediata para esta indagação era simples. Se pudessem reviver os anos passados, as vendas retornariam aos patamares anteriores. Divas da discoteca e donos de discos de platina foram recrutados para esta nova batalha.
A lista é grande. Os nomes são vários. Seja voltando ao palco pelas participações em reality shows da VH1 ou pelo Big Brother, o foco publicitário deste renascimento não estava na novas – ou velhas – músicas, ou nas participações especiais , mas nas histórias tristes do período fora da fama. Como por um passe de mágica, descobrimos que antigos ídolos haviam se viciado nas mais diversas drogas, tinham virado alcoólicos, prostitutas, obesos, depressivos ou tinham até mesmo trocado de sexo.
A estratégia das gravadoras não alcançou êxito. Poucos que voltaram, ficaram de vez. Esta é a história de alguns deles.

POR QUE ELES VOLTARAM?

Existem aquelas bandas ou grupos musicais que a gente dá graças a Deus por terem acabado, ou ainda, que nós entendemos seu fim, já são extremamente datadas e não conseguiriam um sucesso longo.
É o caso de New Kids On The Block, É O Tchan, The B52's e tantos outros...
Vamos começar falando de New Kids, ou NKOTB para simplificar... Uma das precursoras do que foi feitos no fim dos anos 90 por BSB e *NSYNC, eles encerraram a carreira no início dessa mesma década e cada um seguiu seu rumo.
Uns viraram atores, outros continuaram cantando e assim por diante. Até que em 2007, com o ex-integrante mais novo aos 38 anos, os jovens senhores decidem retomar a boy band (ou seria, agora, uma “old men band”). Não é preciso dizer aqui que ficou bem esquisito, né?! É só ver o novo clipe no Review dessa semana e constatar...
Se vai ou não fazer sucesso, o mercado é que vai dizer! Mas o que dá para ficar imaginando é o tipo de público que será atingido: adolescentes que têm fetiche por quarentões?! As jovens senhoras que eram adolescentes no auge do NKOTB?! Difícil responder... A quem agradecer? Ao The Surreal Life, da VH1, que pôs o rosto do vocalista Jordan de volta ao mercado...
É o Tchan... Bem, esse têm uma história um pouco mais complexa... Primeiro porque eles mudaram de nome logo no início da carreira: pouca gente lembra que se chamava Gera Samba no início.
Ok, mas acontece que o grupo sempre foi marcado por uma rotatividade grande de integrantes. Primeiro foi a morena Déborah Brasil que saiu dando lugar a Scheila Carvalho. Depois Carla Perez debandou e cedeu seu posto a Sheila Mello. E assim, foram mudando os vocalistas e o único a resistir por mais tempo foi o dançarino e coreógrafo do grupo Jacaré.
Em 2005, todos os ex-integrantes do grupo se juntaram em alguns shows comemorativos de 10 anos de É O Tchan, quando o grupo esfacelou-se de vez, sem a resistência nem mesmo do “últimos dos moicanos” Jacaré. Mas é daí que vem a boa notícia (ou não né?!)! Em 2007, com uma formação totalmente nova (não sobrou um do original), foi lançado o CD “O Retorno – Ao Vivo”, que não vendeu muito bem(para ser bonzinho, visto que a venda em 2007 não chegou aos 10 mil exemplares).
Mas e a pergunta que não quer calar: afinal, por que eles voltaram?! O grupo foi tendo uma sobrevida enorme, ajudada pelo “10 Anos” e será que ninguém percebeu que seria um fracasso?! Pra se ter uma idéia, nem clipe os caras lançaram na volta do grupo, então, nostalgicamente temos de nos pautar nos antigos...
The B52's é outro caso. A banda surgiu no fim da década de 70 e seguiu até 1992 como trio, pois Cindy, uma das vocalistas, abandonou o barco antes do lançamento de um último CD. Este ano, eles estão voltando com um novo trabalho e a banda completa. Mas parece que ninguém percebeu isso... Alguém conheceu The B52's? Alguém ficou sabendo que eles voltaram a trabalhar juntos?! Imagine como é o clipe que marca o retorno...

O QUE DEU ERRADO?

E as voltas que de alguma forma não dão certo?! Coitadas das bandas... gastam tempo, dinheiro e não dá em nada...
Nessa categoria estão, além de muitas outras, Spice Girls, Village People e a Mara Maravilha...
Spice Girls... Que atire a primeira pedra quem nunca dançou sequer uma música delas. Em 2006 começaram a surgir rumores de uma possível volta. Tablóides da Inglaterra noticiavam constantemente os encontros entre as ex-integrantes da girl band.
Em 2007, a volta foi finalmente confirmada e os ânimos da imprensa e do público ficaram exaltados, todos queriam que o trabalho saísse logo... E em dezembro do ano passado foi lançado o CD “Greatest Hits” e um clipe da canção inédita Headlines (Friendship Never Ends) – Manchetes (A Amizade Nunca Acaba).
Eis que em menos de seis meses, com inúmeros shows marcados pelo mundo a fora, as senhoras de 30 anos decidem dar um fim definitivo ao grupo, por questões pessoais. Dessa vez o fracasso não foi mercadológico, muito pelo contrário... Os shows tinham os ingressos esgotados em segundos, o CD vendeu milhões e o clipe estava em vários tops pelo mundo.
Village People, grupo da década de 70 conhecido por suas músicas dançantes e suas coreografias empolgadíssimas, voltou no ano passado, fazendo show até mesmo no Brasil. Hoje, eles são praticamente vovozinhos e nem combina ficarem dançando por aí... Ou seja, volta fracassada.
Quem lembra da Mara Maravilha?! Exatamente aquela que no meio do comando das apresentadoras infantis loiras era moreníssima... Ela fazia sucesso expressivo, nada comparável à Rainha dos Baixinhos, mas chegou a posar nua, gravou vários discos... Foi quando caiu no ostracismo e converteu-se à religião evangélica, dedicando-se sobretudo à carreira na música gospel. Nem é necessário dizer que suas empreitadas não têm sido bem sucedidas...

UM CAPÍTULO À PARTE: O VOLTA-NÃO-VOLTA DO GUNS 'N' ROSES

Guns 'N' Roses, banda que entrou para o estrelato em 1987 com o lançamento de “Sweet Child O' Mine”, iniciou seu declínio em 1995, com a saída gradual de integrantes da banda como Slash e Duff. Encerrando seus trabalhos em 1998, quando Axl, vocalista da banda, ficou sozinho e comprou todos os direitos sobre o nome Guns 'N' Roses.
Em 1997, houve rumores de um novo trabalho da banda, mas nada aconteceu. Até que em 1999 foi lançada a música “On My God” para a trilha do filme “Fim dos dias”. Esta seria um prelúdio do álbum “Chinese Democracy”, que até hoje não foi lançado! Sim!! Mais de 8 anos de espera e nada!!! Coitados dos fãs!
Axl chegou a dar muitas esperanças quando, em 2001, fez três shows em Las Vegas e um no Rock In Rio 3 (Rock IN RIO de verdade, se é que me entendem...) e anunciou largamente o tal álbum... Mas nada...
Este ano está prometendo... Uma marca de refrigerantes já ofereceu uma lata de sua bebida para cada americano caso Axl resolvesse tirar “Chinese” da gaveta. Um fã chegou a oferecer a soma de US$1 milhão para que o CD seja logo lançado (na verdade há boatos de que Axl esteja pedindo US$15 milhões para o lançamento)... Resta saber se Axl vai se sensibilizar com toda essa movimentação e lançar logo...

 NÃO DISSE QUE DARIA CERTO?ERTO?

Eles voltaram com tudo e repetiram o sucesso. Alguns de forma repentina, mas outros se estabeleceram e continuam em plena atividade.
O grupo de rock nacional Revoluções por Minuto, mais conhecido como RPM, surgiu em 1985 e tornou-se um dos grupos mais populares do país, conseguindo na segunda metade dos anos 80 bater todos os recordes de vendagens da indústria fonográfica brasileira, até aquele momento, vendendo mais de três milhões de discos. O sucesso de “Olhar 43” e do álbum “Rádio Pirata Ao Vivo” marcaram a carreira da banda liderada por Paulo Ricardo.
Em 1987, houve a primeira separação. Durou apenas seis meses e no ano seguinte retornaram com o álbum “RPM”, mais conhecido como “Quatro Coiotes”. Porém houve uma nova ruptura e o retorno ocorreu em 2002 com o lançamento do CD e DVD “MTV RPM Ao Vivo”. Mesmo alcançando grande sucesso com o projeto, Paulo Ricardo e cia. dedicam-se agora a projetos pessoais fora da banda. Mas depois de tantas idas e vindas, eles podem estar de volta a qualquer momento.
Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias formaram Os Mutantes, que chegou a fazer parte do movimento tropicalista na década de 60 e era considerada uma das bandas mais criativas e psicodélicas da música nacional.
Em 1972, Rita saiu do grupo alegando diferenças musicais entre os irmãos Baptista, mas também acabara de ter terminado seu casamento com Arnaldo. Mesmo com o desfalque, foi lançado no ano seguinte o LP “O A e o Z”, onde a banda aderiu ao rock progressivo. Em seguida, foi a vez de Arnaldo deixar a banda e Sérgio não conseguiu reestruturá-la com outros integrantes.
Em 2006, retornaram e realizaram um concerto como parte de uma mostra sobre a Tropicália em Londres. Rita, alegando compromissos na mesma data, não compareceu ao show, e Zélia Duncan foi a vocalista. A apresentação foi gravada e posteriormente lançada em CD e DVD no Brasil. E, antes de se fragmentarem novamente, realizaram uma turnê nacional com êxito.

E NO EXTERIOR...

Viajando para o exterior, temos Nelly Furtado. A canadense era “como um pássaro” no início de sua carreira que de repente bateu asas e voou, ou melhor, desapareceu. A cantora tornou-se conhecida mundialmente e com seu primeiro álbum “Whoa Nelly” (2000) emplacou os hits “I’m like a bird” (que lhe rendeu o Grammy de Melhor cantora Pop) e “Turn off the light”.
Em 2003, Nelly lançou um álbum diríamos alternativo, o que podia ser comprovado pelo próprio nome: “Folklore”. Com elementos folk, instrumentos indígenas canadenses e até trechos de músicas em português, este foi o trabalho menos vendido da cantora.
Eis que após quatro anos de jejum (talvez se recuperando da queda após a repentina ascensão), a senhorita Furtado retorna como uma garota promíscua e com o auxílio de ninguém menos que Timbaland. Alguém duvidou que seria sucesso?
O álbum “Loose” (2007) foi para o topo das paradas e o mega-hit “Promiscuos” foi executado exaustivamente (até hoje) em rádio, TVs, festas, baladas etc. Esse último trabalho da cantora é marcado pelo hip-hop e pelo R&B e com isso muitos fãs disseram que Nelly perdeu sua identidade artística. Outros sucessos desse álbum foram: “Man Eater”, “Give it to me” (parceira com Timbaland e Justin Timberlake) e “Say it right”. 
Continuando na América do Norte, chegando aos EUA, temos Mariah Carey que se viu cair do topo das paradas e fracassar ao aventurar-se no cinema.
Seu trabalho duplo para a música e para o cinema, intitulado “Glitter”, teve a pior repercussão da carreira da cantora. Após seqüenciais sucessos e uma grande queda, uma diva como Mariah precisava de um retorno triunfal, e conseguiu.
The Emancipation of Mimi” foi lançado em 2006 e a colocou novamente no primeiro lugar. Com uma levada mais R&B e parcerias com rapers, singles, como: “It’s like that”, “We belong together” e “Shake it off”, fizeram enorme sucesso e o álbum foi um sucesso de vendagens e fundamental para retomada da cantora; que esse ano lançou seu álbum/fórmula física, “E=MC²”, que vem conseguindo manter o êxito do disco anterior.

ELES VOLTARAM MESMO?
Grandes retornos que não foram notados por ninguém

Você não sabia que eles voltaram? Não! Muitas outras pessoas também...
Para quem pensou que ela só queria se divertir, já tinha conseguido e não voltaria mais, eis que Cindy Lauper, com incríveis 55 anos, retorna com o disco “Bring ya to the brink” e muita dance music.
O retorno da cantora inclui também uma turnê mundial. O pontapé inicial foi dado nos EUA, depois ela irá para a Europa, Japão, Oceania, chegando à América do Sul e passando pelo Brasil em outubro.
Não se espera que essa volta seja tão apagada quanto à de Alex Band. O vocalista do The Calling está fazendo uma série de shows pelo mundo cantando músicas de sua ex-banda (com certeza você conhece “Wherever you wiil go”) e outras canções, que ainda não foram gravadas, de sua carreira solo.
A turnê de Alex está no momento passando pelo Brasil em um total de 12 shows pelo país, chegando a um inexplicável show em clube esportivo em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro, já que haverá outra apresentação em uma grande casa de shows da cidade.
A boy band irlandesa Westlife fez grande sucesso nos anos 90 juntamente com Backstreet Boys e N’sync. Em 2006, a banda lançou um álbum somente com covers de antigos sucessos de outros artistas. Seria o fim da banda?
Após filhos e a saída de um integrante, eles retornaram com o CD “Back Home” no ano passado. Mas pelo visto voltaram de vez para casa e devem ter ficado somente por lá mesmo.

 O QUE FAZER AGORA?

De fã e músico, todos temos um pouco. Quando um ícone de um tempo passado retorna, memórias nossas voltam com eles. A nostalgia é uma grande motivação, mas no mundo musical, como se provou, não é tudo. Por mais lamentável que seja o fim de um projeto, seja por brigas pessoais ou por mero desgaste do estilo, às vezes o melhor é simplesmente aceitar o fim. No primeiro caso, resolver os problemas que levaram a banda ao fim é mais importante do que a própria banda, afinal, retornos motivados pela fama que se esqueceram dos aspectos passados de seus integrantes nunca deram certo (vejam Spice Girls). Quando o estilo caduca, bem, os tempos passam. Pensem de forma positiva e imaginem que nas festas que evocam os anos 80, por exemplo, sempre existirão fãs e cachês, nem tão numerosos ou elevados como na época de ouro, mas ainda presentes. Agora, imaginem se o New Edition voltasse com seus integrantes originais e com o mesmo som? Não daria muito certo, concordam? Grandes retornos são aqueles que dependeram mais da qualidade do artista que da fama passada. Shirley Bassey é um ótimo exemplo desta lógica de reinvenção, assim como Morrissey. E por fim, saber o porquê de voltar é essencial para este retorno. Voltar aos palcos por desejar somente a fama custou ao Dead or Alive bem caro, enquanto o retorno motivado por amor aos fãs traria Gloria Gaynor e Chaka Khan à glória dos tempos passados. De qualquer maneira, retornos são momentos perfeitos para se refletir sobre como mudamos, crescemos, nos arrependemos e sobrevivemos. Mesmo que nestas memórias estejamos usando ombreiras e asas de morcegos.




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