ESQUISITICES, TOSQUICES E AFINS NO MUNDO VIDEOCLÍPTICO bizarre cat

Ariane Holzbach (ariane@clipestesia.com.br)
Colaborador: José Maria Pugas Filho (ze@clipestesia.com.br)


O clipe fala de.... Não, ele conta a história da.... Quer dizer, ele na verdade tenta retratar o... Bem, não sei exatamente como descrever este clipe.
Se tentarmos descrever mais ou menos do que trata um videoclipe esquisito, a citação acima pode ajudar, mas não comece a ler este texto já pensando que videoclipe estranho é simplesmente algo sem sentido ou “tosco”.
Além de serem alvo de boas gargalhadas e até causarem reflexões intensas, clipes que fogem do que se considera “normal” podem expor muitas informações sobre o artistas que, se o videoclipe não existisse, seria bem mais difícil perceber.
Diferentemente do que ocorre na sociedade ocidental, onde ser “estranho” é praticamente sinônimo de ser renegado socialmente – especialmente no que concerne aos jovens e aos adolescentes –, o mundo videoclíptico aceita os clipes esquisitos da mesma maneira que aceita os tradicionais. É a nova máxima segundo a qual em videoclipe, o “tudo” ainda é quase nada.

Mas, antes de definirmos ou tentarmos definir o que é videoclipe esquisito, convém perguntar: mas o que é videoclipe tradicional?

Como regra geral, videoclipe tradicional é aquele que não causa estranhamento. Isso quer dizer, obviamente, que o que é bizarro para a autora deste texto pode não ser para você, leitor. O grau de normalidade de um clipe vai variar de acordo com a experiência cultural de cada espectador.
A experiência que a maioria dos jovens adquiriu ao crescer com a quase extinta MTV aceita como clipes normais aqueles que seguem, em geral, as seguintes características: contam histórias engraçadinhas e/ou fofinhas, mostram a banda tocando em algum palco idílico, transmitem significados fáceis de compreender à primeira vista e são esteticamente agradáveis para os padrões contemporâneos.
Como exemplo clássico, podemos citar o já saudoso clipe 4 Minutes, de Madonna e Justin Timbarlake. Dançante e criativo, o clipe apresenta a música sem chocar o espectador. Artistas em destaque, coreografias ensaiadas e uma temática simples – a passagem do tempo – cumprem o papel normal que cabe aos clipes: incitar o espectador para comprar/ouvir a música.

BIZARROS POR OPÇÃO

Há um conjunto enorme de artistas que fazem questão de causar estranhamento videoclíptico. Mais do que exemplares da mais pura esquisitice humana, esses clipes são feitos por artistas que transformam o estranhamento em opção estética. Quanto mais bizarro for o seu videoclipe, mais o artista se diferencia dos artistas, das músicas e dos clipes feitos pela maioria. Trata-se, mais do que nunca, de uma estratégia de diferenciação. Aqui, ser bizarro é ser cult.
Para começar, um videoclipe clássico da banda nova-iorquina Talking Heads – Cabeças Falantes (!) –, Once In a Lifetime. Descrever esse videoclipe é quase tão difícil quanto resolver um exercício de bioestatística. Ele aparentemente quer refletir sobre a condição desesperadora do homem urbano. Para explicitar esse sentimento, o vocalista e guitarrista da banda, David Byrne, faz coreografias imitando gansos, tem ataques nervosos, nada em uma piscina feita em computação gráfica, finge ser uma roda gigante e esfrega a cabeça no chão, entre outras ações exóticas.
A esquisitice de David Byrne pode ser vista em outros clipes, como em Dirty Old Town, onde um pequeno quadrado no meio do clipe mostra eternamente o rosto do cantor, “atrapalhando” o desenrolar das cenas. Em Sax and Violins, uma das últimas músicas da banda, de 1991, várias cabeças aparecem e desaparecem continuamente. A cabeça-protagonista de Byrne permanece girando no centro da tela na maior parte do clipe.
A banda Talking Heads desde seu cerne, em 1974, tem bastante influência do punk que, entre muitas outras características, é agressivo por opção. A idéia é chocar, ir de encontro às regras sociais estabelecidas. A esquisitice, nesse contexto, faz com que a banda se diferencie do pop tradicional, marcado pelos clipes bonitinhos, e atraia um público interessado nessa quebra.
Essa busca por diferenciação também está no eixo da obra do inglês Peter Gabriel. O artista caminha de mãos dadas com o pop (depois que saiu da banda Gênesis) mas seus clipes tentam causar estranhamento. Intencionalmente, Gabriel quer mostrar um quê mais “artístico” para suas canções, pois o senso comum considera a música pop sinônimo de fórmula fácil.
Muito bem produzido, o clipe Big Time retrata a condição moderna usando animações bizarras, como o solo se transformando em vários rostos, prédios falantes e uma cabeça gigante de Gabriel aparecendo no meio das animações. O mesmo acontece com o antológico Sledgehammer, que ganhou vários prêmios, em 1987. Considerado inovador, o clipe retrata frutas falantes e carrinhos de parque de diversões risonhos, entre muitas outras bizarrices fofas.

MUITO, MAS MUITO BIZARROS POR OPÇÃO

Há ainda os artistas explicitamente esquisitos, como Marylin Manson e a banda King Diamond, que costumam pintar rostos, unhas e sabe-se lá o que mais. Em ambos os casos, a estética visual dos artistas causa choque na maior parte das senhoras ocidentais e dos bons homens de família. Os clipes de Marylin Manson, em especial, chegam a ser considerados mais nojentos do que esquisitos.
Em The Nobodies, por exemplo, uma das primeiras cenas mostra Manson usando um chapéu com chifres, como se fosse algum demônio. Em outra cena, seu chapéu de chifres dá lugar a orelhas de galhos secos.
Em outra de suas obras, Manson inverteu o sentido da letra de um dos maiores sucessos da dance music – Sweet Dreams (are made of this). Ele transformou os “doces sonhos” em um terrível pesadelo. Dizem as más línguas – ou as boas – que Manson inspira boa parte dos diretores de filmes de terror ocidentais. O clipe é um verdadeiro show de horrores, com direito a uma “medusa-Manson”, lambidas de porquinhos, instrumentos de tortura humana, um Manson verde e quase nu, vestido apenas com uma espécie de saia de balé adaptada.
Em Give Your Soul, a banda King Diamond se transforma em um conjunto de almas que rondam uma espécie de castelo mal assombrado e parecem estar em busca das almas dos outros. Em uma das cenas, o guitarrista e sua alma penada tocam em meio a um cenário de fogo (!).

Menção honrosa: Bjork é estranha

E não somos nós quem falamos, mas sim os ingleses na pesquisa realizada pela BBC em 2006 para eleger a celebridade mais excêntrica do mundo.
Seus clipes, assinados por diretores de vulto como Michel Gondry e Chris Cunninghan, são odes ao estranho como barreira a ser desafiada pela música. Seu compromisso com a arte e ousadia rendeu-lhe prêmios indecorosos, menções nada honrosas e olhares atravessados dos mais conservadores. Ainda assim, ela tem o respeito de críticos e o reconhecimento daqueles que mesmo que não entendam o seu Bizarre Way of Life, aceitam que sua música e seus clipes têm proposta.
Antes ser estranha, que ser vulgar, diria nossa Bacherolette. E deste lema, clipes como Pagan Poetry, All is full of Love, Earth Intruders e Hunter nascem, crescem, se reproduzem e ainda não morreram. Ave Bjork.

IH! NÃO ERA PARA SER BIZARRO!

Alguns exemplares do mundo videoclíptico perdem seu significado original com o passar dos tempos. Preste atenção, por exemplo, no mega-sucesso global O Amor e o Poder, de Rosana, que marcou a geração das discotecas caseiras. Os closes de câmera, o figurino e a “narrativa” ficaram datados. E o videoclipe, que antes trazia romantismo aos casais apaixonados, hoje causa risadas incontroláveis.
O que dizer, então, do fenômeno do Youtube, What What (in the Butt), de Samwell? Visto por quase 13 milhões de pessoas, o clipe tenta mostrar os dotes vocais, dançantes e sensuais do cantor. Mas o que se vê são... um coração de chocolate falante, olhos arregalados, danças mostrando o traseiro, crucifixos pegando fogo, três Samwells em uma mesma cena, o cantor em uma nave espacial rosa e outras cenas dificílimas de descrever...

BRASIL BIZARRO

De maneira geral, o Brasil não tem tradição de artistas que fazem clipes propositadamente bizarros. Um bom exemplar desses é o já antológico Funk da Pamonha, de Rodney Dy, que satiriza e traz muitas pitadas pornográficas ao ato de comer pamonha.
Sobram, então, os que se tornam esquisitos por perderem sem espírito original, como foi o caso de Rosana, ou simplesmente porque o público compreende o clipe de forma diferente do que parece ser a intenção do artista.
Há alguns anos, a música Na Boquinha na Garrafa, da Cia. do Pagode, foi hit de todo um verão. Criancinhas, senhoras e mães Brasil afora rebolavam por horas em cima de uma garrafa. E isso era considerado normal. Hoje em dia, o clipe da Cia. do Pagode mostrando uma garrafa, pessoas rebolando, vários integrantes da banda usando camisas de times como Vasco, Flamengo, Bahia e Fluminense e até o título da música, que recebeu uma tradução em inglês – The Bottle Dance – soam muito, muito bizarro!

BIZARRO? PARA QUEM, CARA PÁLIDA?

Adjetivações de produtos culturais dependem das referências daquele que os classifica. Valores como grotesco, bizarro e exótico quase sempre serviram a um discurso de distinção cultural. O que se destaca da normalidade esperada se torna o estranho e, portanto, passível de não ser levado a sério.
Na panacéia de clipes que chegam pela internet de partes do mundo desconhecidas pela grande parcela do mundo ocidental, o estranho volta a se reunir com o preconceito, com o desconhecimento. Para confirmarmos esta consideração, basta gastarmos algum tempo passeando pelos comentários de usuários de YouTube quando os clipes são indianos, paquistaneses ou japoneses, por exemplo.
O relativismo cultural sobre o qual falamos serve diretamente ao nosso propósito de apresentar clipes que para nós pareceriam bizarros, mas que nas suas sociedades nativas seriam normalíssimos (com exceção de Bjork, que é estranha em qualquer lugar, até na Islândia).
O mercado cultural japonês é um exemplo singular de como podemos ser ingênuos ao apontar para clipes como sendo bizarros em essência, enquanto, no Japão, suas estéticas são tão comuns ao telespectador local quanto é para nós ver cantoras seminuas.
Chu! Natsu Party, de 3nin Matsuri
Ai no Imi wo Oshiete, da dupla W.
No caso indiano, a acusação de bizarros se soma a de plagiadores. O sucesso do clipe Golimar, retirado do filme Donga e apelidado de Thriller indiano, apesar de impulsionar o interesse pelos clipes indianos pelo público ocidental, chamou para si argumentos de que a produção indiana fosse na verdade cópias mais baratas dos originais americanos.
Bollywood e suas coreografias planejadas quase como um ritual tem difícil entrada no mercado ocidental graças ao epíteto quase sempre presente de bizarro.
Golimar
Phabru Deva – Kalluri Vaanil
Até agora, falamos somente de mercados culturais extremamente fortes, concorrentes diretos dos hegemônicos americanos. O quadro piora em países cuja tradição videoclíptica é recente e a experimentação é uma norma.
Quirquistão
Tadjiquistão
Quando suas estéticas são receptivas aos olhos ocidentais, são acusados de trair suas raízes e se enquadrar aos padrões ocidentais. Quando obedecem às suas fórmulas originais, raramente se esquivam de ser considerados bizarros. Não é difícil pensar o porquê dos produtores de clipes orientais quase nunca cruzarem o Bósforo.

E para você, o que é um clipe bizarro? Mande sua seleção pra gente: clipestesia@clipetesia.com.br




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