Edição #03/2008

Mais açúcar, por favor

Air Supply - Salve a Alanis! - A seca dos nacionais

 

   Mais açúcar, por favor


Melodrama e dor-de-cotovelo no videoclipe
Prepare seus lenços! Que Maria do Bairro que nada! Tão melodramático quanto qualquer filme com Julia Roberts pode ser o videoclipe!

Marcelo Mendonça – (marcelo@clipestesia.com.br)
Colaboradora:
Ariane Holzbach – (ariane@clipestesia.com.br)

Choro, chuva e corações partidos: o melodrama também tem alma!

Quando um filme, uma música ou um conto de fadas é tão cheio de sentimentos que faz a gente sentir aquele nó na garganta, pode ter certeza: é o melodrama agindo a todo vapor. Mais do que figura de linguagem, trata-se de um gênero mundial que há séculos se caracteriza por valorizar os sentimentos humanos mais profundos, a maioria relacionado às emoções amorosas. Tão amado por uns e odiado por outros, o melodrama em 1535 já era um termo pejorativo. Só em 1795 foi considerado um gênero, a princípio, teatral. Segundo Jean-Marie Thomasseau, professor de teatro do Paris 8, o gênero só foi consagrado em 1800, com a peça “Celina” de René Charles Guilbert. Enquanto teatro foi definindo logo seu público pra uma linha “povão”. O melodrama é basicamente constituído por uma vítima (leia-se mocinha/ herói) e vilão que pode ser uma pessoa, mas também pode ser um fator da vida, causado pelo destino. Aristóteles define esse destino como “harmatía”, ou armadilha. Essa armadilha geralmente é causada por um excesso de ingenuidade e que é levada como uma culpa pelos protagonistas do melodrama. Peter Brooks define a imaginação melodramática como um meio de operacionalizar a moral através de maniqueísmo, polaridade entre o bem e o mal e expressão da sensibilidade. É certo que com o passar do tempo os valores mudaram e isso se refletiu nos melodramas. O estilo existe há mais de 500 anos, está no cinema hollywoodiano consagrado desde 1940, na TV desde seu início em 1950... É ultrapassado demais para estar presente também nos videoclipes que tem cerca de 30 anos. É? Não é. Se no cinema melodramático, ou lacrimoso, a bondade era sempre pobre e loira, nos videoclipes as temáticas são outras e quase sempre mais perto do que vivemos atualmente. Homens arrependidos, mulheres sofredoras, a morte vista com muito romantismo, casais que sofrem até ficarem juntos, câmera lenta, imagens fortemente exploradas, cenários escuros e depressivos, maquiagem pesada, figurino sisudo... Quase tudo vale no videoclipe quando a intenção é suscitar fortes emoções. Um clipe é mais que um meio de divulgação para um artista, uma linguagem recente que precisa geralmente atingir a um público mais jovem e nem por isso menos exigente. Não seria natural, portanto, que eles tratassem dos mesmos valores que Douglas Sirk tratou em “Palavras ao Vento”, de 1956, quando o videoclipe ainda estava longe de nascer.

Melodrama no videoclipe: um bombardeio de emoções

Não existe uma regra para um videoclipe ser melodramático. Geralmente, esses clipes têm uma narrativa linear, uma vítima e um problema tão grande, mas tão grande que nos faz sentir pena. A intenção dos clipes melodramáticos é a mesma que a dos outros meios que o melodrama permeia: emocionar o espectador e, se possível, arrancar lágrimas. A diferença é que um clipe tem em média 5 minutos. Então, prepare-se para um bombardeio de fortes emoções! No início dos anos 80, a linguagem de videoclipe era recém-nascida. As músicas que já falavam de amor ganhavam “clipes de historinha”, com começo, meio e fim, mocinha, herói e vilão... A banda Air Supply, no clipe “Making Love Out Of Nothing At All” conta a “história” do guitarrista da banda, Graham Russel, que se apaixona perdidamente por uma bondosa loira. Eles precisam se separar por conta da carreira do rapaz, e passam a viver um amor de lembranças. Durante poucos minutos, vemos o casal separados por uma eternidade. Encontramos aí a questão da “armadilha do destino”, citada por Aristóteles. Como todo bom melodrama, a moral da história se dá nos segundos finais, quando a mocinha volta para Graham, mostrando que o amor vence a tudo. Bonito, né? O que não pode haver no melodrama é a felicidade constante, e sim a busca pelo mesmo. No videoclipe de Celine Dion, “It’s All Coming Back To Me Now”, vemos que ela é uma mulher rica através dos cenários e figurinos, que fazem questão de nos lembrar que Celine é uma “diva”. No começo do vídeo, a casa de Celine Dion está no meio de uma tempestade, ventania e muitos trovões. Clichê muito usado pelo melodrama para designar quando alguma coisa está fora de ordem. O clipe mostra o amor da vida da cantora indo embora de moto e ela não consegue suportar a sua partida, o vendo no espelho e até abraçando em sonhos. O porta-retratos com a foto do casal se quebra, mas o tempo fica bom quando Celine consegue juntar os caquinhos. Coisa poética! Outros clipes tratam dessa temática de quando o grande amor vai embora. “Illegal”, de Shakira é um exemplo, e ainda mostra que os melodramas não pararam no videoclipe pelos anos 80. No vídeo, Shakira pede perdão ao seu ex-namorado lutador. Outro clipe melodramático atual é o “Bleedin Love”, da Leona Lewis. O clipe tem duas versões: uma da Inglaterra (país de origem da cantora) e outra dos Estados Unidos. É difícil saber qual delas é mais melodramática: Leona aparece desnorteada em ambas as versões. Na versão inglesa, ela é mostrada com outras mulheres, e na norte-americana está no meio de uma rua movimentada, perdendo sua individualidade. Esse conflito interno também é comum no melodrama.

Está em prantos? Podemos continuar a matéria?

Então vamos lá no fundo, pegar da raiz. Imagine que você está em lua-de-mel, em um navio gigante, céu azul, pessoa amada... Mas, repentinamente, começa a chover! Aí já era. Se começou a chover num videoclipe melodramático, pode ter certeza, tudo vai desandar! Estamos falando de “Quisiera”, do mexicano Alejandro Fernandez. Depois que começa a chover, a mulher, que está em casa, não consegue localizar o barco do amor de sua vida nem por rádio nem pela internet. O barco vira e logo aparece Alejandro Fernandez, em meio a uma luz branca cantando para o amor que deixou. Ainda no maior estilo “Ghost”, menos mexicano, há o clipe “Someday” do Nickelback. Na “narrativa mística”, a mulher se despede de casa chorando muito e sem dar atenção ao que o homem diz. Pega suas coisas, sai de casa, entra num carro e sofre um acidente... O que o espectador dificilmente reparou é que o rapaz do clipe estava morto desde o início. Trata-se da sua alma que, ainda perdida, tenta entender por que a mulher amada o ignora. Quando ela sofre o acidente e também morre – em um típico clímax melodramático –, os dois se encontram e assim ocorre o final feliz, quase sempre presente no melodrama. Acidentes também são comuns para tornarem o melodrama mais divertido. Júlio Iglesias em “Ni Te Tengo Ni Te Olvido” vai parar em uma ilha deserta, após o barco em que estava pegar fogo. Uma mudança social que podemos observar nos videoclipes melodramáticos é a aceitação moral do homossexualismo. Em 2006, no clipe “All About Us”, da t.A.T.u, as namoradas brigam e logo após a discussão, uma delas sai com um homem. Enquanto estão se beijando, a menina vê que não fez o que deveria, já que estava com um homem simplesmente por raiva e tenta sair, mas o homem impede e a agride. Ela então pega uma arma e atira no homem, voltando assim para sua mulher. No videoclipe, há a condenação da traição e a agressão a mulheres; já o homossexualismo é tratado com naturalidade.

Tudo meio escuro e triste: melodrama e estética

A estética do videoclipe melodramático é, em geral, escura para causar mais tristeza e desconforto. Algumas vezes, mais elementos do “sobrenatural” aparecem no clipe para dificultar a trama. É o caso do “Te Encontrar de Novo”, do cantor Vinny. A história é a mesma: a mulher vai embora e ele sente saudades, mas nesse vídeo é diferente. Ele a vê em todo lugar: além do clássico reflexo no espelho, vê vultos voando, vestidos de noiva na televisão, fumando cigarro, e, pasmem, caindo da geladeira! No fim do clipe, Vinny, literalmente, perde a cabeça. É um melodrama pra chorar de medo, de causar inveja a José Mogica.

No Brasil, temos muitos videoclipes melodramáticos, e, em sua maioria, sertanejos.

Em “Antes de Voltar Pra Casa”, de Zezé Di Camargo & Luciano, acontece uma metalinguagem. O clipe mostra Zezé como um ator de telenovela e Luciano como diretor. Além dessa alusão direta ao melodrama, o personagem de Zezé sofre por ver a sua amada nos braços do diretor. No fim do clipe, os dois assumem que se amam, mas se desencontram, aparecendo a mensagem “A seguir, cenas do próximo capítulo”, usada até os anos 70 nas telenovelas que são a maior referência em melodrama no Brasil. Leonardo pode ser visto como entregador de pizza em “Te Amo Demais”. Ele sofre de amor platônico e não consegue parar de pensar na mulher que come suas pizzas. No fim, é claro, eles se encontram e tudo dá certo. E, com vocês, o ápice do melodrama sertanejo: Chitãozinho & Xororó com Reba McEntire. A música é “We’re All Alone”, clássica do Good Times. O videoclipe tem todos os aspectos do melodrama, a letra, narrativa e clichês. Chuva, solidão, vazio, amor platônico e lembranças, muitas lembranças. No fim do vídeo, uma lágrima do protagonista se confunde a uma das gotas de chuva, comparando assim a infinidade de lágrimas que o mesmo derramou.

Quando a narrativa é maior que a música

Desde “Thriller”, vemos clipes que ficam grandes demais para música e acabam se tornando curtas metragens. Thriller não pode ser considerado um melodrama por não ter os elementos principais, como inocência, passividade e resistência do protagonista, citados por Arthur Schopenhauer em “El Cine Melodramático”. Contudo, no videoclipe “November Rain”, da Guns ‘n Roses, há uma superprodução melodramática. Em nove minutos de clipe, vemos várias locações e uma narrativa toda construída em torno do casamento de Axl Roses. A mulher de Axl é linda, o casamento é lindo, tem tudo para dar certo. Até que surge o grande vilão: o destino! Se considerarmos a questão da moral, Axl aparece com outra mulher no começo do clipe, como se estivesse em sua despedida de solteiro. Perder a esposa seria um castigo? Esses rockeiros são tão sentimentais... Em 2006, dois clipes-curtas melodramáticos foram lançados. Justin Timberlake com “What Goes Around... Comes Around” e Sandy e Junior com “Estranho Jeito de Amar”. Os dois têm o mesmo estilo e a mesma temática, com inversão apenas de personagens. No clipe de Justin, sua namorada o trai e logo depois de uma briga, ela sai de carro na rua. O carro capota e ela morre. Destaque para a fotografia e efeitos especiais do clipe, que não devem nada a Hollywood. Na época, inclusive, falou-se que Justin queria fazer um novo Thriller. No clipe de Sandy e Junior ocorre algo semelhante. Sandy descobre que seu namorado a traiu depois de não ter conseguido ligar para seu celular. Ela encontra o namorado no flagra e quando ele vai atrás dela, é atropelado. O mocinho morre. O videoclipe é inspirado no filme de Pedro Almodóvar, “Tudo Sobre Minha Mãe”, e ao fim dos treze minutos do clipe, podemos ver que ela, apesar de traída, ainda o amava. Por último, mas não menos importante, vemos que o melodrama não é exclusividade do Ocidente. A banda coreana Kiss faz um dos maiores melodramas já encontrados em videoclipe. Em “Because I’m A Girl”, um casal se conhece e, por conta do destino, se reencontra várias vezes e dali nasce um amor. Após vários encontros, a menina deixa cair álcool em seus olhos e fica cega. Seria o fim de um amor? Diferentemente de todos os clipes mostrados, nesse a cantora não aparece cantando nenhuma vez.

Mais do que histórias apaixonadas...

Mas nem só de romance se constitui o melodrama. Vemos que as personagens inocentes podem ser, além de mocinhas, outro símbolo de fragilidade, como uma criança. No clipe “Luka”, de Suzanne Vega, um menino vítima de pedofilia é o centro da trama. O melodrama se encontra tanto na letra da música quanto nas imagens dele subindo as escadas, passando por corredores e sempre em meio à solidão. Na solidão, também se encontra Lindsay Lohan no clipe de “Confessions Of A Broken Heart”. Lindsay está chorando no banheiro, lamentando as brigas de seus pais. Os mesmos, por conseqüência, brigam durante todo o vídeo e dentro da lógica da parede de vidro, comum na pós-modernidade, onde todos buscam visibilidade e acabam se mostrando mais que deveriam. O clipe de Lindsay Lohan mostra objetos quebrados, closes em fotos e chuva de vidro. O melodrama está tão instaurado no nosso imaginário que em qualquer meio encontramos seus elementos. Videoclipe, cinema, televisão, teatro e até na linguagem jornalística. E sempre vai ser assim! Sempre haverá pessoas sofrendo dor-de-cotovelo e outras pra acompanharem (e se identificarem) com todo esse excesso de sentimento. Temos que prestar atenção, apenas, com o que vemos, para não sermos totalmente dominados pelas emoções. Afinal, uma das grandes questões que rodeiam o melodrama diz respeito ao fato de ser um gênero de manutenção da ordem vigente. Isso quer dizer que a gente pode chorar, acabar com a caixa de lenços e torcer para o casal ficar junto no final. Mas tudo com muita, muita consciência. Chuinf....

Gosta de clipes melodramáticos? Qual você acha que a gente deveria ter citado aqui? Manda pra gente! clipestesia@clipestesia.com.br

Livros consultados:
SCHOPENHAUER, Arthur; El Cine Melodramático. Algan Ed. Paris. 1909.
STAM, Robert; Bakhtin – Da Teoria literária à Cultura de Massa. São Paulo, Ática, 2000.
BALTAR, Mariana; Moral Deslizante – Releituras da Matriz Melodramática em Três Movimentos. UNESP, Compós. 2006.
BROOKS, Peter; A Imaginação Melodramática. Yale University Press. 1995.


Top 10 - Os clipes mais melodramáticos

1. Peabo Bryson e Roberta Flack - Tonight I Celebrate My Love

2. Whitney Houston - I Will Always Love you

3. Toni Braxton - Unbreak my Heart

4. Celine Dion - My Heart Will Go on

5. Kenny G - Forever in Love

6. Britney Spears - From The Bottom of My Broken Heart

7. Brian Addams - Everything I Do

8. Peter Cetera - The Glory of Love

9. Sixpence None The Richer - Kiss Me

10. Air Supply - Making Love Out Of Nothing At All




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