Sexo. Em que exatamente você pensa quando ouve essa palavra?

Por diversos motivos, a maioria vai responder que a palavra “sexo” está associada diretamente a um homem e a uma mulher mantendo relações sexuais. Mas todos já somos modernos demais para saber que essa não é a única forma de amor que existe na sociedade. E, dependendo do ambiente que você freqüente, nem é necessariamente a mais comum. Os livros de história existem para não nos deixar mentir: a homossexualidade entre homens e mulheres sempre existiu. É natural, portanto, que esse tipo de relacionamento apareça nas mais diversas formas de cultura. O videoclipe, naturalmente, não é exceção.

José Maria Pugas Filho (zé@clipestesia.com.br)
Colaboradores:
Francisco Quiorato (francisco@clipestesia.com.br) e Ariane Holzbach (ariane@clipestesia.com.br)

Mas como em com todas as culturas, algumas normas sociais de conduta e comportamento dificultaram – e ainda dificultam – a livre expressão das opções sexuais no videoclipe. Afinal, o moralismo , algumas religiões e o senso comum que regem a nossa sociedade consideram que “ser gay” é um fenômeno “errático”, “desviado” do que se considera normal. Diversos artistas – nem sempre gays – lutam há anos contra esse tipo de juízo de valor, e os clipes muitas vezes servem como forma de exposição dessa resistência. Nos primeiros videoclipes, que apareceram em meados de 1970, os artistas evitavam ao máximo tratar de questões sobre sua sexualidade. Um dos maiores ícones pop dos anos de 1980, Freddie Mercury, já liderava a banda Queen em 1975, quando o clipe Bohemian Rhapsody apareceu pela primeira vez na televisão. A mídia sempre soube que Freddie era gay e tinha muitos amantes. Mas o clipe, e seus subseqüentes, transformam Freddie em um astro encaixado no que se espera de um cantor de rock: “machão” ao máximo. Questões sobre as opções sexuais que uma pessoa pode ter só começaram a aparecer nos clipes do Queen a partir dos anos de 1980. I Want To Break Free, por exemplo, foi composta em 1984 e é um dos primeiros videoclipes que fazem referência à homossexualidade. Dirigido por David Mallet, o clipe faz uma paródia das novelas britânicas melodramáticas. Freddie e os demais integrantes do Queen se vestem de mulher e brincam de serem donas-de-casa. O fato de Freddie ser gay não aparece explicitamente no vídeo, mas, a partir do vídeo, os fãs da banda poderiam ligar imediatamente o cantor à imagem de um homossexual.

ASSUMIR OU NÃO – EIS A QUESTÃO

Em Hollywood ou em nossa pátria tropical, interpretar personagens gays em novelas e filmes é um prova da versatilidade do ator. A fase de laboratório é vista com anedotas, mas raramente vem acompanhada de rigores morais que condenem a conduta do artista. Afinal, é um sacrifício pela Arte. O oposto acontecerá, no entanto, se o ator em questão além de interpretar um papel gay ser publicamente gay. Esta equação ao mesmo tempo que exaltou artistas como Tom Hanks e Antonio Banderas, no papel do advogado gay portador do vírus HIV – então chamada de praga gay – e seu companheiro, respectivamente, restringiu a atuação de Rupert Everett, que desde sua saída do armário não consegue papéis de galãs heterossexuais que tão bem interpretava. Não poderíamos esperar diferente no mundo fonográfico. Ao menos, nos mercados ocidentais deste lado do Atlântico.

ENQUANTO ISSO, NA TERRA DA RAINHA...

Destaquei anteriormente “este lado do Atlântico” por um simples motivo. Enquanto o mundo republicano recebia chocado a informação de que o cantor da boyband *N’SYNC , Lance Brass, era gay, a Inglaterra aplaudia com naturalidade a postura do cantor irlandês Mark Feehily, da boyband Westlife.
Esta naturalidade da Europa pós-Elton John permite que cantores possam interpretar canções de amor para mulheres e ser adoradas por suas fãs sem que estas pensem na postura sexual predileta de seus ídolos. Estranhamente no país onde Liberace, George Michael e Prince eram amados como ícones heterossexuais, as posturas mais cruéis contra artistas homossexuais são executadas.
Uma situação é aquela em que todos os homossexuais são condenados por um Estado, como na maioria dos países árabes. Outra situação, contudo, é em países onde há grande tolerância aos comportamentos não-heterossexuais – esqueçamos a Família Phelps neste contexto – o indivíduo se ver cerceado de sua vida amorosa como preço da fama.

MÚSICAS GAYS X ARTISTAS GAYS

Nem sempre para cantar músicas gays, precisa-se ser gay. O contrário também é verdadeiro. Nem sempre para ser gay, precisa-se cantar músicas gays.
Os maiores exemplos são o vocalista do R.E.M., Michel Stipe, que somente assumiu sua homossexualidade em 2008, quando estava mais do que consagrado no cenário musical americano, Stephen Gately (Boyzone) Will Young, Elton John ou George Michael – principalmente em sua fase “pós-banheiro”. Suas músicas, marcadas pela poesia ou sensualidade, apelam às mulheres um romance, confessam-lhe amores ou até mesmo as convidam para sonhos extraconjugais.
OK, alguém deve ter pensado nos Pet Shop Boys, abertamente gays desde que Castro era a capital gay do mundo livre e a AIDS não existia, e criadores de vários hinos gays desde então. Mas convido estas pessoas também a pensar em It’s Raining Men, das Weather Girls, ou quase todas as músicas do ABBA para que elas percebam que música considerada gay pode ser belamente executada por artistas heterossexuais.
Esta velha fórmula do senso comum gera quimeras como T.A.T.U, as falsas lésbicas que viram no mercado gay o golpe publicitário perfeito para conquistar público. Depois de anos cativando o público mais jovem não-heterossexual, que tinha perdido nos anos 80 suas referências representativas e não se identificavam com a produção musical corrente, decidem assumir sua heterossexualidade. Claro, não por boa vontade, e sim pela gravidez indesejada de uma das cantoras e seu caso com um lutador russo.

Um cenário em mutação
Enquanto ainda temos clipes que cultivam esteriótipos gays, como o Gay Bar, do Electric Six, e o coro da Família Phelps, a sexualidade, seja ela qual for, flexibiliza-se. Enquanto nos anos 80, a homossexualidade tomou a Disco como forma de expressão, os clipes se tornam, por seu dinamismo estético, o palco privilegiado para expressão de liberdades individuais e, com destaque, de gênero.

BRASIL ASSUMIDO

No Brasil, a temática gay aparece pouco no videoclipe. Até porque o gênero só começou verdadeiramente a se desenvolver no país quando a estética dos clipes gays já estava bastante avançada mundo afora, no final dos anos de 1980 e começo dos 90. Mesmo assim, há exemplos significativos.
Em “A namorada” (Carlinhos Brown), todos sabem que ela “tem namoradA”, porém no clipe não fica evidente se a personagem da Camila Pitanga encontra-se com suas amigas ou realmente com sua namorada (no caso, namoradas... aí já seria um outro assunto: relacionamento aberto...). Por isso, assista ao vídeo e dê sua interpretação.
Já com a dupla formada pela irmãs gêmeas Kênya e Keyla, K-sis, a letra não determina o gênero feminino, como na música do Carlinhos Brown, mas o clipe de “Beijos, Blues e Poesia” traz cenas (com interferências, impossibilitando a identificação do rosto das pessoas) em que meninas trocam beijos e carícias. Além disso, temos a impressão, ao tentar compreender a sucessão dos fatos, que a gêmea Keyla mostra-se desinteressada por meninos e após não ter seu amor correspondido por uma mulher que a ignora, joga-se ao mar no fim do clipe.
Até mesmo os garotos cariocas do Forfun retrataram essa temática através de uma situação que está próxima dos jovens. Em uma apresentação da banda em versão caseira, um garoto investe todo tempo em uma garota e ao fim do “show”, a garota termina com outra e ele, assim, sai frustrado.
A mamãe do rock nacional também fez questão de retratar o tema abordando-o no clipe e na letra da música “Obrigado não”, ao falar de proibição e censura. Já nas primeiras cenas um beijo gay entre homens. Poderiam ser homens comuns, mas eram militares no meio do pelotão!! Uma atitude rockeira para acabar com o preconceito e gerar polêmica.

 

DE OLHOS PUXADOS E AMÁRIO ABERTO – O MERCADO JAPONÊS

Avançando bem para o leste, o Japão aposta na fórmula dos Bishonen – homens jovens com traços andróginos – para as bandas de visual Kei.
A homossexualidade no Japão é fato novo. Não por antes inexistir a conduta homossexual, e sim por ela ser tão recorrente que se confundia com a heterossexual. Somente a medicalização do comportamento desviante pelas potências ocidentais que cercaram o Japão, e principalmente a invasão de missionários cristãos no arquipélago, que a Sociedade Japonesa abandonaria a prática ancestral do Nanshoku (literalmente Cores Masculinas, referente à arte homoerótica masculina e também ao relacionamento gay, geralmente entre um mais jovem e outro mais maduro) e começava a penalizar, mesmo que para atender às demandas dos países europeus, a conduta homossexual. Passado o período pós-guerra, o cenário cultural japonês criou a atmosfera perfeita para a androginia a e homossexualidade, comportamento que repugna qualquer fórmula pré-estabelecida de sexualidade e defende a livre expressão do sujeito.
Bandas como L’Arc En Ciel e Malice Mizer revitalizam o cenário da androginia, fenômeno que no Ocidente beirou a histeria nos anos 80, com bandas como Dead or Alive ou o cantor Prince.
Enquanto os artistas gringos apresentam realmente o que se espera de um clipe com temática homossexual, aqui pelas terras tupiniquins mesmo com a maior parada gay do mundo (!!), há um tratamento mais sutil (ou até mesmo retraído) com o tema, exigindo atenção nos detalhes por parte do espectador; seja na narrativa apresentada no clipe ou mesmo na letra da música.

Confira aqui o TOP 40 dos clipes mais gays.

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