O videoclipe e a cultura trash na Internet

Marcelo Mendonça (marcelo@clipestesia.com.br)
Colaboradores:
Bianca Caetano (bianca@clipestesia.com.br) e Rodrigo Galhano (rodrigo@clipestesia.com.br)

Os Spoofs

Danças esquisitas, imagens engraçadas, amigos bêbados fazendo palhaçadas... Senhoras e senhores, com vocês, os reis do Youtube: Os SPOOFS!
Se interatividade é a palavra-chave de todas as tecnologias comuns na pós-modernidade, a Internet é a primeira a de fato permitir que o usuário seja participante/emissor ativo na produção de conteúdo.
Com tal interatividade, acabamos nos deparando com a maior variedade cultural e com materiais mais diferentes possíveis. Hoje, o conceito de bom e ruim se tornou relativo e os vídeos mais assistidos no YouTube são os relacionados ao humor. O que há dez anos seria considerado “lixo cultural”, hoje é a menina dos olhos da indústria cultural, para desespero de Adorno e Horkheimer.
Segundo o pesquisador da UERJ, Eric Felinto, “um ‘spoof’ é uma paródia ou imitação de um vídeo”. Não há quem não morra de rir assistindo a versão com mais pêlos e quilos de Shakira e Alejandro Sanz, em La Tortura, digo La Gordura. Assim como também não há quem diga que um clipe feito todo em desenho pra música Fico Assim Sem Você não é fofo. Como esse aspecto de paródia, uma das principais funções do spoof é homenagear ou dessacralizar o original. E por que não dizer que eles também podem dessacralizar homenageando?
Muitos pesquisadores afirmam que o spoof tem durabilidade curta no ciberespaço, o que não se pode comprovar, já que vídeos antigos com caráter de spoof permanecem necem on line e os números de acessos só aumentam.
Os spoofs apresentam aspecto “viral”, uma vez que são feitos sem apoio comercial, e a divulgação dele geralmente é na base do “boca a boca”.

Os Spoofs e a História

O spoof com conhecemos só existe hoje graças á interatividade promovida pelas novas tecnologias. Quem é que nunca inventou musiquinhas quando era criança, parodiando as originais? E até mesmo não gravou “videoclipes” ou imaginou um? O que muda é o ciberespaço e a possibilidade de exibir a sua “obra prima”. Se os spoofs funcionam como espécie de paródia, pode-se afirmar que os primeiros spoofs foram exibidos em programas humorísticos da televisão. Renato Aragão e a trupe de Os Trapalhões fizeram sátiras humoradas na década de 70, imitando Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Sidney Magal etc. O formato de “spoofs feitos para a TV” também esteve em programas de fora do país, como o Saturday Night Live, que até hoje apresenta paródias muitas vezes feitas com o próprio artista original.
Os spoofs gerados pelos usuários são recentes, tendo em vista que o advento da Internet é recente, e do Youtube, maior gerador de spoofs por minuto, é mais recente ainda. Só em 2005 ele foi para o ar, estimulando o crescimento das produções nesse formato. Hoje não temos noção de quantos milhões de spoofs estão espalhados pelo YouTube no mundo inteiro.

Spoofs x Videoclipes Oficiais

O problema é quando os papéis se invertem! O que foi feito pra ser um spoof fica tão bom que confundimos com o oficial... E aquele oficial nós confundimos com os spoofs.
Algumas bandas preferem ser “sujeito oculto” no videoclipe, o que já pode gerar certa dúvida se o videoclipe é oficial.
O videoclipe do Detonautas Roque Clube – O Dia que Não Terminou é um exemplo. O videoclipe inteiro mostra cenas reais sobre acidentes de trânsito, usadas pela polícia. O videoclipe é bem produzido, mas poderia ter sido facilmente produzido por um fã. O que diferencia esse videoclipe e o dá legitimidade é a exibição na televisão. Você pode achar inclusive que é uma campanha do governo contra o excesso de velocidade no trânsito, pois de tão didático ele mostra até dados estatísticos no final. Apenas na parte do refrão, os integrantes aparecem em imagens meio distorcidas. No contexto, o videoclipe foi lançado depois que o guitarrista do grupo, Rodrigo Netto, morreu em uma tentativa de assalto enquanto dirigia.
Provavelmente, uma das bandas com os videoclipes oficiais com mais cara de spoof seja a extinta Los Hermanos. Geralmente, quando eles apareciam nos videoclipes, era como participação especial, por exemplo, como artistas circenses em “Primavera” e uma banda de baile em “Anna Júlia”. O clipe que mais confunde o telespectador em relação a sua legitimidade é “Fingi Na Hora Rir”, que usa imagens de um aniversário de 15 anos, com formato de filmagem antiga. Mostram o bolo, os convidados, o aparelho de som...
No clipe de “O Vento”, a estética é diferente, mas os elementos são os mesmos. Imagens feitas de dentro de um carro, de uma rua comum, pessoas comuns, orelhão, carros parados... Um videoclipe que poderia ter sido feito por um usuário, mas a legitimidade vem quando o mesmo é exibido na TV.
O Jane’s Addiction também tem videoclipes que podem ser facilmente confundidos com spoofs. Com imagens que parecem ter saído de um documentário, “Been Caught Stealing” usa humor e imagens de dentro de um supermercado. É visível que as imagens não foram retiradas em um dia comum, mas um usuário poderia ter criado o videoclipe.
Ainda nessa estética, vemos o clipe “Praise You” do Fatboy Slim. Assim como os clipes acima, ele parece ter sido gravado por câmera não profissional e mostra imagens de pessoas comuns, numa casa comum, dançando juntas. O videoclipe no começo conta inclusive com uma narração em off, do camera man, no estilo vídeo caseiro mesmo.mesmo.
E se você chamar amigos pra cantarem uma música e gravar um vídeo? Foi isso que o Nickelback fez, em “Rockstar” várias personalidades diferentes aparecem cantando essa música. Menos os integrantes da banda.banda.banda.
Na contramão, encontramos os videoclipes que de tão, digamos, pitorescos, não parecem oficiais! O que dizer de uma ex-musa rebolativa, falando ao telefone se abraçando com uma almofada, tomando banho de banheira ou simplesmente virando água corredeira abaixo? Pois é! Estamos falando de “Água”, da Sheila Mello, a ex-nova loira do Tchan. Parece spoof, mas é verdade. E se você liga a TV e vê mulheres dourando os pêlos do corpo, rebolando ao redor de uma escultura que insinua ser um pênis, com escamas num biquíni e pedindo: “Me chama de sereia?”. Não parece normal, mas esse é o clipe oficial da banda Tanga de Sereia, que já embalou outras canções bregas como o “Homem do Gás”, e teve o videoclipe no mesmo estilo.
Sem contar com videoclipes que parecem ter sido editados no os no Movie Maker, sem iluminação adequada, cenários sucateados e isso tudo sem um propósito estético. Ou seja, como citado por Eric Felinto, a estética é a mesma utilizada pelos spoofs, a do inacabamento.

Spoofs com Cara de Oficial

Quando a cria é tão boa quanto a obra, não se limita a uma simples paródia e define roteiro e direção diferentes do que o videoclipe oficial propôs originalmente. Músicas que geralmente não tem videoclipes oficiais ganham versões em spoofs para a Internet, o que é bom até mesmo para o artista.
Como exemplo, podemos citar o videoclipe “A Falta que a Falta Faz” – Jay Vaquer, que o estudante Lucas Lobrigatti fez, que ficou original e tão bom quanto o oficial, e também “Gueto” – Marcelo D2 feito por Hugo Behring.
Se estamos num estágio alto de interatividade através do YouTube, com a chegada da TV Digital, a tendência é que cada vez mais consigamos ficar próximos da produção do conteúdo e que os spoofs se confundam com os videoclipes oficiais.

 

E você, tem um spoof pronto? Pensa em fazer algum? Manda pra gente! clipestesia@clipestesia.com.br
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