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Apesar de taxados de “comerciais”, videoclipes também sofrem com a proibição midiática. Até onde um videoclipe pode ir?
Ariane Holzbach (ariane@clipestesia.com.br) Colaboradores:
Rodrigo Galhano (rodrigo@clipestesia.com.br) e Patrícia Angélica
(patricia@clipestesia.com.br)
Responda rápido: você deixaria sua linda sobrinha de seis anos assistir a um videoclipe colorido, ao som de um pop dançante?
E se o vídeo tematizasse, digamos, fetiches sexuais? Mulheres sensuais, cheias de curvas e praticamente sem nenhuma roupa dançando, lambuzando-se de espuma, tirando a roupa aos poucos, fazendo topless, brincando com uma mangueira...
Provavelmente sua reação vai depender do país onde você nasceu. Se foi no Brasil, vai sentir a chamada vergonha alheia; talvez pense em mudar de canal ou levar sua sobrinha para passear. Se você nasceu nos Estados Unidos, provavelmente vai tirar sua sobrinha imediatamente de frente do vídeo e vai procurar alguma associação que defenda a moralidade da família. Se nasceu no Afeganistão, sua sobrinha nem vai sonhar que tal vídeo existe.
Em 1981, o grupo de rock inglês Duran Duran arregalou os olhos das senhoras recatadas da Inglaterra ao lançar o videoclipe da música
Girls On Film, cujo roteiro é o descrito acima.
Dirigido por Godley & Creme, que também fez clipes para The Police e Yes, o videoclipe causou tanta repercussão que acabou banido da BBC – uma das mais importantes emissoras do mundo –, foi editado para passar na MTV – que tinha apenas duas semanas de vida – e até hoje é difícil encontrar a versão completa mesmo na internet.
Na época, para defender sua imagem, a banda alegou que a intenção seria transmitir o clipe apenas em casas noturnas e canais fechados. Mas nem nesses espaços o clipe foi visto. Em compensação, o reboliço foi tão grande que a banda, que tinha apenas três anos de existência, foi alçada à fama: o mundo inteiro ouviu falar do Duran Duran e, a partir de então, a banda fez um sucesso inimaginável durante toda a década de 1980.
Nesse caso, o Duran Duran até hoje deve agradecer pela censura que sofreu. Mas quase nunca é assim.
Muitos artistas já tiveram videoclipes banidos ou censurados a partir de Girls on Film: Michael Jackson, Queen, Foo Fighters, George Michael, The Prodigy, Aphex Twin...
O caso mais famoso é o de Madonna, que provavelmente é a artista mais censurada do mundo videoclíptico:
Justify My Love,
Erotica,
American Life,
What It Feels Like For a Girl... Todos foram duramente criticados principalmente pelo público norte-americano por tratarem de temas tidos como politicamente incorretos: enquanto os dois primeiros contêm cenas que fazem referência ao sexo, American Life foi considerado anti-americano, pois foi gravado perto da invasão do Iraque pelos Estados Unidos e compara a guerra a um desfile de modas. Já What It Feels Like for A Girl transforma Madonna em uma badgirl que assusta velhinhas, assalta, rouba e destrói. Em todos os casos, o objetivo “comercial” do videoclipe foi posto à prova, pois arranharam a imagem da artista e a obrigaram a emitir respostas à sociedade. Em alguns casos a Diva se desculpou e em outros, respondeu de forma contundente em novos trabalhos. O clipe
Human Nature, por exemplo, é uma resposta a todos que a chamaram de pornográfica.
O QUE O MUNDO CENSURA?
De maneira geral, três categorias de videoclipes costumam ser banidos, editados ou censurados: os que retratam sexo, violência e vícios. Os clipes com teor político, mesmo que polêmicos, não costumam causar tantos problemas, embora por vezes tirem o sono do artista, como foi o caso de American Life, de Madonna.
Temas censurados costumam ser politicamente incorretos. É claro que a definição do que deve ou não se considerado “correto” varia segundo o contexto social de cada cultura. Clipes como
A Minha Alma, do grupo carioca O Rappa provavelmente seriam censurados em outros países, pois é difícil prever o grau de moralidade de outro contexto social
Há muitos clipes que, por vezes, não desviam tanto do politicamente correto mas sofrem censura. O clipe da música
Body Language, de 1982, do grupo inglês Queen, por exemplo, brinca o tempo todo com corpos em movimento, de forma bastante sensual. Apesar de em nenhum momento expor nudez ou contato direto entre dois corpos, o clipe não foi aceito pela MTV por ser considerado sexual demais.
O QUE É CENSURA?
O tema é polêmico, mas, de maneira geral, tudo o que cerceia as liberdades de expressão e opinião pode ser considerado censura. Livros editados sem consentimento do autor, músicas proibidas de serem veiculadas em certos horários, filmes e novelas proibidos para determinados públicos... Obras de arte que têm seu conteúdo deturpado, editado ou rasurado podem ser consideradas censuradas.
A censura acontece porque a sociedade não é realmente livre: ela se baseia em normas morais e de conduta. Existem graus de censura que variam culturalmente, mas em todos os lugares existem tabus e normas e, quem ousa quebrar o que é considerado moralmente incorreto têm grandes chances de ser punido. Alguns dizem que a censura é necessária para manter o controle social. Outros afirmam que ela impede a pluralidade dos discursos e, assim, o desenvolvimento da criatividade, dificultando que a sociedade
avance. EXISTE CENSURA NO BRASIL?
Ao contrário do que se possa pensar, a censura não é mais branda com os videoclipes nacionais.
Antes de chegada da MTV no Brasil, em 1990, o grande veiculador de videoclipes era o Fantástico, da Globo. A repercussão dos videoclipes no programa era tamanha que mesmo músicas que já tinham
videoclipe oficial, como era o caso de “Meu Erro”, dos Paralamas do Sucesso, ganhavam uma versão com o “padrão Globo de qualidade”. Em certo sentido, trata-se da primeira censura que acometeu a produção de clipes nacionais de que se tem notícia. Esse padrão excluía clipes que não atendiam às expectativas do canal, como ocorreu com “A Mulher Invisível”, de Ritchie.
Como até a década de 1990 a produção de videoclipes no Brasil era modesta, comparado ao que se tem hoje, e só ganhou impulso depois da chegada da MTV, em 1990, a censura propriamente dita começou a ocorrer a partir daí, embora ainda seja feita de forma velada. Certos ritmos, como axé music, música sertaneja e pagode, produzem muitos clipes que não são veiculados no canal até hoje.
Algumas vezes a MTV censura clipes politicamente incorretos, até porque a produção deles é reduzida. Em 1998, Ivo Meirelles (na época integrante da Banda Funk´n´Lata) gravou o clipe da música “Boquete”. Além da letra pornográfica, no clipe, havia várias cenas que simulavam o sexo oral. A música foi ignorada nas rádios e o mesmo aconteceu na televisão. Para que o clipe pudesse ter alguma chance de ser exibido, Ivo Meirelles pediu à gravadora que colocasse numa tarja a palavra “censurado” nas cenas consideradas mais fortes. A tática deu certo e o clipe passou a ser exibido na MTV, porém restrito à madrugada.
Ainda no final da década de 90, a banda Garotos Podres teve o clipe da música “Expulsos do bar” rejeitado pela MTV por conter cenas de violência. O motivo, segundo o vocalista
Mao, eram as imagens de insurgência popular gravadas em El Salvador, divulgadas pela Frente Farabundo Martí de Liberación Nacional (FMLN) que tornariam o clipe inaceitável, visto que a MTV é uma emissora norte-americana e que naquela época os EUA mandavam armas e dinheiro para combater o grupo. Mao disse que se tratava de censura política, porque na mesma época a MTV exibia clipes de outras bandas que continham cenas de violência.
CURIOSIDADES:
A música “Boquete”, de Ivo Meirelles, foi escrita em 1996, porém Ivo não teve coragem de gravá-la. A música só foi lançado em 1998, no segundo CD do Funk´n´Lata. Pouco tempo depois a mídia noticiava o escândalo sexual envolvendo o então presidente dos EUA, Bill Clinton, e sua estagiária. Graças ao escândalo a música acabou fazendo mais fama do que o esperado, tendo inclusive Bill Clinton sendo parodiado (ou seria homenageado?) no clipe de “Boquete”.
EXISTE CENSURA NA INTERNET?
A censura de videoclipes na internet segue um rumo diferente do que se vê na televisão. É possível colocar quase todo tipo de clipe na rede, pois na maior parte das vezes o que se censura não é o produto, mas o público atingido. Grandes portais e sites, como Youtube, permitem que o usuário insira vídeos politicamente incorretos, mas tenta evitar o acesso de crianças e adolescentes.
No espaço virtual, a censura acomete principalmente clipes protegidos por direitos autorais, como os lançamentos de grandes artistas musicais. Se você tentar neste momento postar no Youtube o clipe “4 minutes”, de Madonna, Justin Timbarlake e Timbaland, terá o clipe e, quiçá, seu canal inteiro banido da rede para sempre. Nesse caso, as gravadoras – que têm seus próprios canais no Youtube – detêm os direitos sobre o clipe.
FEITOS PARA CHOCAR: ATENÇÃO: ESSES CLIPES FORAM PRODUZIDOS ESPECIALMENTE PARA CHOCAR, OU SEJA, SEUS PRODUTORES PROVAVELMENTE SABIAM QUE SERIAM CENSURADOS. TODOS CONTÊM CENAS DE VIOLENCIA E AUTO-FLAGELAÇAO. SÓ ASSISTA SE VOCÊ FOR MAIOR DE IDADE E TIVER ESTÔMAGO.
SMACK MY BITCH UP - PRODIGY
Diretor: Jonas Akerlund Ano de lançamento: 1997
RIGHT NOW – KORN
Ano de lançamento: 2003
Diretor: Nathan Cox
COME TO DADDY – APHEX TWIN
Diretor: Cris Cunnigham
Ano de lançamento: 1997 Veja outros clipes censurados especialmente por canais de televisão:
My neck, My back (Khia) – Censurado por causa da letra que fala sobre sexo oral
Somebody to love (Boogie Pimps) –Alusão a pedofilia
Because I got High (Afroman) – Apologia as drogas
Juicebox (The Strokes) – Censurado por mostrar cenas homossexuais tanto entre homens como entre mulheres
Come Undone (Robbie Williams) – Censurado por mostrar ce de sexo, mena-à-tróis, lesbianismo e consumo excessivo de bebida e cigarro.

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